As corrupções cotidianas

Não venderia nada, no máximo esses objetos serviriam como souvenires do seu primeiro assassinato.

Do amor e de outras tristezas, de Rodrigo Novaes de Almeida, reúne 13 contos regidos pelo signo da violência e da morte. São breves narrativas que, pela materialidade de sua temática, filiam-se ao trabalho anterior do autor, Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie, finalista do prêmio Jabuti. Alguns enredos, inclusive, tomam emprestado personagens ou dão continuidade à circunstâncias iniciadas nesta primeira antologia de 2018.

Outro procedimento contextual ocorre dentro do próprio volume, quando certos textos, organizados de modo espaçado, vão se revelando gradativamente fragmentos de uma trama inter-relacionada. Histórias a princípio autocontidas, mas que esgarçam seus limites, constituindo-se também um encaixe seriado.

Ainda assim, sem qualquer prejuízo à experiência de leitura, pois, da mesma forma que nos contos vinculados às referências prévias, o processo de construção é executado de maneira que o leitor não dependa dessas complementações para formular o entendimento.

Novaes de Almeida opera sua escrita numa espécie de paradoxo entre estrutura e conteúdo. A despeito do brutalismo que tem o papel de catalisador dos conflitos que motivam suas tramas, a montagem das frases transmitem controle e esmero, o ritmo nunca se apressa do fluxo moderado.

Nada se descabela, esparrama-se num frenesi ou num grafismo gratuito pensado para o choque. A gravidade ressoa naturalmente do relato e se decanta no inquietante da imaginação, mesmo nos casos mais extremos, a exemplo de “A necromante, os lobos e as ovelhas”, que descreve a tortura e o abuso sexual de crianças.

As narrativas são impactantes porque há um remanso nelas. Em “Todos os infernos do mundo”, a narração em segunda pessoa pontua o embate entre a protagonista e seu eu-inquiridor, num retorno tardio à cidade natal para o sepultamento da mãe. “Carta a vovó” é o curso angustiante da composição de um pedido de socorro, ao passo que “Delação” se baseia no testemunho de uma criança que, por ser criança, não é levada em conta em meio a um grupo de adultos que confessam barbaridades.

Os registros de crueldade se imprimem ora no fundo psicológico, ora na fisicalidade do corpo. “O ex-pugilista” aumenta a voltagem à medida que se descobre que o sumiço de um jovem boxeador está ligado a um esquema de lutas fraudadas. “Puta”, um ótimo conto com um arco dramático tradicional, narra as desventuras de uma acompanhante de luxo que cai de paraquedas numa festa onde uma coincidência despertará o ódio de um cliente do passado.

A antologia se encerra com “Breve trilogia das enfermidades”, diário de um enfermo que detalha o tratamento de um câncer, durante o qual se contamina com o coronavírus. O texto é uma conversão de material biográfico em ficcional, pois, como conta no prefácio, o autor passou pela mesma situação.

Ali está o impacto da descoberta, a tensão para se realizar uma cirurgia num mundo atordoado pelo começo da pandemia, a visão interna do caos dentro de um hospital. Embora seja a narrativa mais positiva por questões óbvias, consegue ser a mais contundente.

“Enquanto eu me segurava à vida, outros morriam diante dos meus olhos”, escreve o personagem, e isto está ao alcance de todos nós.

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Livro: Do amor e de outras tristezas

Editora: Urutau

Avaliação: Bom

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