Caçada num mundo em coma

No exterior, cegados pela luz do dia, intuíram que aquele mundo já não era o de antes e muito menos o seguinte: giravam no torvelinho do presente como dois ratos na enxurrada.

Um homem sai por uma cidade hostil, de modo a cumprir uma promessa familiar que, no vão do tempo, vai se tornando uma busca obsessiva. Essa poderia ser a premissa de O riso dos ratos, de Joca Reiners Terron, mas é de Os ratos, de Dyonelio Machado, cuja estrutura o autor cuiabano parece emular, inspirar-se, fazer tributo em seu novo romance.

Escrito em 1935, o clássico do psiquiatra gaúcho tem como protagonista Naziazeno Barbosa, um funcionário público que deambula pelas ruas de Porto Alegre à cata de alguns réis com que possa saldar a dívida com o leiteiro para não faltar o sustento do filho. Suas andanças são guiadas por pensamentos aflitos e visões desesperançosas.

Um pai renhido é igualmente o personagem-condutor do livro de Terron, movido pela procura do agressor de sua filha desaparecida. O desejo de vingança é o último que seu corpo consumido por uma doença fatal consente. A diferença é que o caos não se restringe ao seu espaço de consciência, mas se irradia por todo cenário que percorre. A sociedade que conhecemos virou um pandemônio, um ambiente degradado apoderado por milícias, onde se praticam os atos mais bárbaros e desumanos.

O enredo se incia com uma espécie de interlúdio, no qual, por meio de voltas e contravoltas, o protagonista apresenta seu drama, seu estado físico e psicológico de ruína, e como a falta de justiça transformou seu desespero em paranoia à beira de um mundo em colapso. A partir daí, depois que sai de sua alcova para caçar comida, embarca numa odisseia de violência durante a qual interage com outros personagens, foge de perigos, presencia formas de brutalismo e equivale a urgência de seu acerto de contas ao senso de sobrevivência. Um traçado errante, marcado por uma perspectiva pessimista, em que a contundência da tragédia pessoal se reflete na realidade ao redor.

É interessante notar como o autor monta sua trama na aposição de camadas, onde uma face projeta a outra operando em escala: a memória que ressoa nos atos, que repercutem alto as tensões opressivas de um mundo doente e doentio. Tudo e todos não passam de escombros agora. E a força simbólica se estabelece nesta metáfora totalizante, e ainda na instituição de um paradoxo dissolvente: perseguir o mal num universo de maldades ainda continua sendo uma forma de redenção?

A exploração desses dilemas cria um movimento de espiar antes e depois da derrocada social, e refletir sobre a deformação dos valores a partir, por exemplo, do descaso dado ao estupro sofrido pela filha no passado, quando o presente faz das mulheres escravas sexuais. O que é fratura e o que é permanência? Outro procedimento agudo está na incidência da analogia histórica no plano ficcional. A certa altura, o trabalho forçado numa área para o cultivo de alimentos faz referência ao sistema de plantation, praticado no período colonial e executado com mão de obra escrava. Os comportamentos tirânicos e as torturas praticadas evocam os anos de chumbo da ditadura militar.

O problema está na condução narrativa. A escrita comporta o leitor na posição de observador e a cadeia de acontecimentos passa como se fosse um longo travelling, sem pontos de tensão, sem fundura para transcender a distância dos olhos até a página. A tentativa de gatilho sensorial está no detalhismo de cenas escabrosas, sanguinolentas, porém a repetição leva a uma certa analgesia à medida que o texto avança e o grafismo vai se desapossando do choque. Talvez esse fosse o efeito buscado pelo autor: demonstrar que o absurdo da violência se normatizou no consciente coletivo. Porém, no contexto literário, pasteurizou um painel de tintas tão fortes, amortecendo sua potência estética.

Não se trata de culpar o ritmo estreito e a prosa carnosa, ou menos o vaivém entre o interior e o exterior do homem. Dyonelio Machado atou as perambulações de Naziazeno a uma circularidade que vai se constringindo, abarcando delírios e tormentos, na proporção que o dia chega ao fim e se aproxima o retorno à casa. O cerco de sua interioridade envolve o leitor, e este sente e enxerga através da direção do personagem, entra a fundo na complexidade de sua agitação existencial.

Falta o ingresso a esta experiência ao livro de Terron, uma leitura mais absorvente e não apenas representação. Naturalmente que a realidade tem um apelo assimilativo mais integrante que a distopia. Mas, convenhamos, numa história em que a população foi dizimada por uma febre e o controle da sociedade passa a ser de um miliciano, gerar este aspecto reconhecível nos dias de hoje não deveria ser tão difícil assim.

***

Livro: O riso dos ratos

Editora: Todavia

Avaliação: Regular

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s