Um bestiário reconhecível

Eu tinha literalmente quebrado a cara quando tirei a minha vida apostando naquele mito suicida de Sísifo.

“Alfredo” é um dos contos mais curtos e menos citados de Murilo Rubião. Ainda assim, é aquele que melhor ilustra uma das obsessões temáticas do escritor mineiro: a investigação da existência humana no espaço de transfiguração de um bestiário. Na trama, um casal entra em desavença quando sons de uma criatura vindos de um morro próximo provocam medo na mulher. Cansado daquela aporrinhação, o homem decide tomar uma providência e retorna conduzindo a fera por uma corda. A esposa se escandaliza e diz que não quer aquele animal por perto. Então, o marido (atenção, spoiler!) responde: Animal é a vó. Este é meu irmão Alfredo. Não admito que o insulte assim.

Ao apresentar o elemento fantástico com serena naturalidade, o personagem rompe com a realidade ao mesmo tempo que estabelece as rédeas do insólito dentro de um ambiente ordinário, um cotidiano familiar a todos nós. O ser pensante metamorfoseado em besta deixa de ser um destaque desconcertante e torna-se um vulto alegórico, a chave para acessar representações do corpo físico e do plano emocional. Impregnado de uma ambiguidade totalizante, o processo de criação passa a ser regido pelas possibilidades interpretativas, a partir da quais, incorporada aos fatos da trama principal, pulsa uma segunda camada induzida pelo comentário social, a reflexão filosófica, a observação cômica.

O paraibano Tiago Germano persegue essa mesma dualidade de sentidos nos contos que compõem Catálogo de pequenas espécies, sua primeira seleta de textos ficcionais, depois de uma premiada antologia de crônicas. O autor explora a banalidade do cotidiano em sua planificação como experiência de vida, instando os princípios que aproximam a condição humana de sua matriz primitiva, no qual o animal é um componente simbólico. É muito mais que um procedimento de conjurar o absurdo para se inverter o mundo que conhecemos, mas trazer à tona o absurdo do mundo reconhecível, as relações concretas e virtuais, por meio de uma perspectiva sardônica, um fel matreiro.

As feras não são agentes fora da lei mundana, seres fabulosos de um universo mágico, e sim avatares inquietantes nos quais os protagonistas se miram para promover uma regressão à natureza dos desejos mais profundos, um fundo dramático emplastrado de contundência ora cogitativa ora crítica. Vide “Até os lobos uivam quando estão sozinhos”, conto que abre o livro. Um casal tenta se adaptar à chegada de um cão, enquanto o cão adapta seu instinto selvagem ao ambiente doméstico. Flashes dessa convivência sugerem uma discussão sobre conformismo e automatismo da rotina. “Chiclete azedo”, texto seguinte, toma um assunto extremamente delicado, o suicídio, e o desnaturaliza pelo ponto de vista crítico-mordaz, pelo qual a morte passou a ser motivo de espetáculo. Num determinado momento, o narrador declara: Porque minha queda, registrada por iPhones que surgiram do nada assim que tentei, da forma mais discreta possível, subir no parapeito do prédio, só estava fadada a se repetir em looping no Youtube, onde o vídeo do suicídio chegou fácil a vinte mil visualizações, superando o dobro o de uma mulher que pulou de um edifício na zona oeste (…).

“Le Gran Circus Moscow” adota uma estrutura mais convencional para narrar, com nuances de humor, o frisson que a chegada de um circo causa no comportamento de uma família, enquanto “Diário de criação”, com o título autoexplicativo, desfila fragmentos de ideias para uma composição textual que não se conclui, polvilhando soda cáustica sobre a metaliteratura e a autoficção, zombando, no melhor estilo Pica-pau, do meio literário e de determinados autores. Aliás, a escolha do termo “seleta”, aqui, não é meramente designativa. Germano procede ante o fazer literário como quem abre uma caixa de ferramentas variadas. De uma narrativa a outra, formato, estilo e tom se distinguem sem discrição, estabelecendo uma noção circunstancial de correspondência na maneira de organizar os contos.

É o que ocorre, por exemplo, com “Sobrevida” e “A procissão”, relatos contados de dentro por vozes infantis, nos quais os protagonistas lidam com situações irradiadas por manifestações imateriais. “Xvideos”, um dos melhores textos, acompanha as divertidas reuniões de mulheres casadas que buscam sósias de si em sites pornográficos, até que uma delas se depara com uma cena que lhe desperta uma suspeita irresistível. O desfecho, como em outros casos, efetua uma reviravolta que se prolonga na imaginação do leitor.

Encerrando essa primeira parte, nomeada “Taxonomia”, a dupla “O calango” e “O domador de hienas” é aquela que mais se avizinha ao bestiário muriliano, ainda que a intromissão do fantástico se dê em estados de consciência. No primeiro, um filho testemunha a ruína mental da mãe, que se queixa de um pequeno lagarto percorrendo seu corpo, ao passo que o segundo descreve a coexistência entre o narrador e uma fera, desvelando-se um enredo metafórico, com direito a piscadela para Augusto Monterroso.

A segunda parte, denominada “Cadeia alimentar”, traz textos com a verve crítica mais aflorada, abastecendo-se, por vezes, da generalização pessoal e do registro jornalístico, que lhes fornecem características semelhantes as da crônica. “Dia de coleta” parte de uma altercação entre vizinhos sobre lixo, de forma a migrar para segredos sujos. “A lei do mais forte” retorna aos personagens do conto inicial, colocando o cão e seus donos numa situação em que um fato bruto leva a um revide brutal. Embora finquem suas hastes no plano ficcional, os contos ressoam uma discussão sobre moralidade e retidão, que leva o leitor a pensar sobre os dilemas da sociedade.

O mesmo ocorre com “Empregadas”, um mosaico montado de frases soltas e falas que sublinham atitudes mesquinhas travestidas de normalidade no viés dos andaimes entre classes. Num desses, um personagem explica seu critério para aceitar uma criada: (…) a Cida é limpinha e deixa tudo tinindo na segunda. “Tio Oto”, por sua vez, narra, pela visão do sobrinho de um candidato a vereador numa cidade interiorana, as manobras que envolvem uma eleição. Há, de novo, o uso de um recurso implicativo na construção de camadas, ao se estabelecer uma analogia entre a miopia do personagem e a maneira benevolente com que enxerga a postura de seu tio, a todo custo para se eleger.

As narrativas finais dão a impressão de resgatar memórias do autor, tratando de afeições, episódios biográficos e arqueologia familiar. “Continência” versa sobre legado e virtude (ou a falta desta), ao entrecruzar a conduta do filho de John F. Kennedy após o atentato, a deplorável escolha do atual ocupante da presidência da República e a relação do narrador com seu pequeno sobrinho. “Terrivelmente evangélico” é uma história de destinos partidos, enquanto “Germes” conta os apuros de um menino na casa de uma tia germofóbica. O livro se encerra com “Matinês”, fragmentos armados em saltos temporais que traçam uma genealogia através da força de vontade das lembranças e seus vãos.

Em “Alfredo”, Murilo Rubião faz um retrato desolador de um homem que, mesmo modificando em espécie sua forma, não se livra da sina de ser escanteado pelo mundo. Os personagens de Catálogo de pequenas espécies também estão à deriva, porém o fado que a eles recai vem de seus valores e comportamentos deturpados, que levam a retrocessos como o visto no atual cenário político brasileiro. Não são bestas com dom fantástico, capazes de se converterem num dromedário ou num coelhinho cinza, e sim aquelas obtusas, de mentalidade rasa e movimentos truculentos, tão medíocres que preferem transformar um violão em arma.

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Livro: Catálogo de pequenas espécies

Editora: Caos & Letras

Avaliação: Bom

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