A palavra andrógina

minto tanto que às vezes não sei diferenciar a realidade do que inventei. sou um mentiroso de coisas fúteis e de coisas relevantes.

Ante a impossibilidade de se rotular, com exatidão, Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos, pode-se dizer que o novo livro de Leonardo Valente é um romance de experimentações. Tanto a forma quanto o conteúdo são alvos de transgressões, de uma radicalização da arquitetura literária que dispensa o todo orgânico em favor de uma distensão do universo verbal, tendo a palavra, etimologicamente e sensorialmente, como matéria própria.

É através e em busca do poder de consignação da unidade linguística que opera a voz onisciente que comanda a narrativa, estabelecendo, na intimidade do testemunho, uma tentativa de constituir um vernáculo particular que lhe represente, que lhe dê corpo, que lhe identifique à medida que avança ou que recua em seu relato.

Assim, adultera a linha convencional do espaço-tempo, encontra uma estilização da linguagem que reflete seus traços de personalidade, manipula a percepção dos fatos de maneira que a ambiguidade defina o processo formativo. Fala sendo/enquanto mulher, sendo/enquanto homem, uma androginia imanente; usa das possibilidades dissociativas que oferecem as ferramentas da ficção. A distância entre real e falso tem a extensão de quão fundo vai para mergulhar em si.

Não por menos, a frase de decodificação do enredo é: a intenção inicial deste livro era ser poço, mas virou espelho e agora é ser gelo. O/A personagem cava camadas da experiência do vivido, de um passado que lhe atormenta, de modo a descobrir, no espelho de uma água escura e subterrânea, um reflexo impreciso, cheio de falhas. A partir do dito e do não dito, tateia um plano subjetivo de fragmentos e elipses onde almeja a eternização. Perpetuar-se no inefável do texto, permanecer para além da concretude.

Sua via de manifestação, portanto, é um fluxo de consciência inconstante e digressivo, que passa ao longo de lembranças frugais a ponderações sobre desejos represados. Exuma cadáveres de casamentos falidos, confessa certas parafilias, lista receitas gastronômicas, reflete sobre ressentimentos profundos não expressos. O entendimento de ser uma inflexão ficcional permite que dialogue com personagens de outros livros, associando seus dramas a histórias que emparelhem suas opções, seus atos de destino.

Valente articula uma escrita sem esteio, explorando um caos controlado de onde ressoa um(a) narrador(a) que incorpora, a sua fervura de ideias, elementos filosóficos e psicológicos, convertendo-se, algumas vezes, num vozerio, que substitui a individualidade pelo bando, que modula a autonomia da forma para propagar o gênero. Ser múltiplos tipos amplia a faculdade de apreender os temas de discussão, sendo dois lados, vários lados. É tanto o algoz quanto a vítima, dilatando o debate sobre a masculinidade opressora.

Com a estipulação dessa postura central para o olhar crítico, o autor conduz a tessitura cambiante entre a intraliteratura e a intertextualidade, elaborando chaves e afinidades explícitas, com Tolstói e Clarice Lispector, e implícitas, com Hilda Hilst e Virgínia Woolf. D. seria uma transfusão de Orlando em G.H., emulando Anna Karenina.

Daí o romance se encaminha para o fim, onde toda a contextura cifrada se desvira numa revelação prosaica. Pode satisfazer a alguns, pode desagradar a outros, porém, independente do critério, é uma decisão que não macula o benfeito processo de apreensão da linguagem e dos sentidos.

Criogenia de D. aposta na desconstrução, na mobilidade de arranjos estéticos para expressar uma turbulência mental, e funciona sem cair em maneirismo, sem nunca perder o controle de sua proposta indutiva. Leonardo Valente é corajoso ao se arriscar, e ser bem-sucedido, na reificação de um estado de consciência, o que não é pouco.

***

Livro: Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos

Editora: Mondrongo

Avaliação: Bom

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