Crônica de dois imigrantes

Imprensado dentro de uma van sucateada, Dominique Baptiste completa um grupo de haitianos que, com o arranjo de um coiote, tenta cruzar a fronteira sul-americana para o Brasil. O ar viciado, a falta de banho e a fome de dias logo são aplacados pelo pânico, quando o veículo é parado por policiais bolivianos. A ameaça associada à extorsão será o prelúdio dos atos de agressão física e psicológica que irá sofrer, depois de finalmente instalado numa sede policial improvisada para receber o fluxo de estrangeiros que chegam pelo Acre. O local não oferece boas condições, mas ali Dominique conseguirá um documento que lhe dará direito a permanecer e, principalmente, trabalhar em território brasileiro. Afinal, foi por isso que fugiu de seu país, após a promessa de ser acolhido num emprego no Paraná. Seu plano é fazer dinheiro para enviar para a esposa e o filho, que ficaram no Haiti arrasado pelo terremoto de 2010, agora agonizando numa crise econômica incontornável.

Ocorre que é tomado de assalto por um golpe das circunstâncias e acaba indo parar em Santa Catarina, na cidade de Chapecó. Contratado para a linha de produção de um frigorífico, passa a ser explorado de forma sub-humana, além de virar alvo de humilhações e piadas racistas. Seu convívio se limita aos haitianos com quem divide residência, dos quais começa a aprender o português e recebe o conselho de ficar alerta na rua, especialmente com o Terrore Bianco, um grupo extremista que ataca imigrantes. Porém o aviso, como vai sentir algumas vezes na própria pele, é bem mais abrangente, já que a cidade é um dos maiores redutos bolsonaristas do país. A essa pressão constante soma-se o desespero da esposa, na iminência de ser despejada pelo atraso do aluguel. Então a alternativa de fazer uma grana se torna um caminho perigoso.

Dominique, pode-se dizer, é o personagem principal de Morte Sul Peste Oeste, romance de André Timm. A reticência quanto ao protagonismo deve-se ao fato de, paralelo a sua história, correr a de outro personagem que merece também destaque. Trata-se de Brigite, uma menina trans de 00 anos, que, apesar da pouca idade, suporta uma carapaça de infortúnios bem pesada. A mãe viciada em crack lhe persegue para furtar o dinheiro que ganha se prostituindo. Bruno, como consta na certidão de batismo, é a preferida de Milani, sujeito barra-suja, dono de um desmanche e envolvido com rinha de galos. A sociedade conservadora, naturalmente, não a vê com bons olhos, e essa desaprovação repercute em entreveros na escola. As pessoas de confiança são incidentais e prevalece, em variadas escalas, um sentimento de inadequação.

Ocorre que, a despeito do mundo contra, Brigite encara a vida com atrevimento e o futuro com esperança. Sonha em ser cineasta e usa de suas habilidades amadoras com a câmera do celular para denunciar o namorado abusivo da mãe e expor a xenofobia dos membros do Terrore Bianco. Certo dia, enquanto deambula pelo desmanche de Milani, capta uma conversa na surdina e toma uma decisão intempestiva que vai fazer com seu entrecho se conecte ao trânsito da trama do haitiano.

Sobre um fundo de tensão dramática, Timm compõe uma crônica sobre dois imigrantes: um, exilado de seu país, e outro, estrangeiro do próprio corpo. A escrita econômica, de frases bem articuladas e destituídas de enlevos subjetivos, dá conta de marchar na sucessão dos fatos num estilo sustentado na tradição do realismo quase jornalístico. São as experiências do vivido que dão substância à consistência literária, delineando, com límpida naturalidade, os aspectos físicos e psicológicos dos personagens a partir de como estes reagem às situações-limite e como estas influenciam na modulação de seus destinos.

O autor demonstra um claro compromisso com a verossimilhança, abrindo poucas exceções imaginativas justamente para dialogar com a realidade. É o caso de quando usa da imagem da rinha de galos para fazer uma analogia com masculinidade tóxica e, em outro momento, quando Dominique presencia uma menina negra num parquinho, em meio a uma turma de crianças brancas, e a ideia que se desenha é do paralelo com uma selva. Afora esses desvios, o desenvolvimento do enredo ocorre com a precisão de levar a narrativa num crescendo, no qual o ritmo associado aos propósitos do cotidiano só se quebra numa contravolta que vai unificar as linhas de acontecimentos.

Assim, o romance guiado, em grande parte, pela perspectiva massacrante de Dominique, adquire um tom mais libertário proveniente da atitude de Brigite, que, no arrasto das más previsões, nutre uma ingenuidade otimista pela vida. Contemporâneo e empírico, Morte Sul Peste Oeste é um retrato de uma tragédia que nos visita diariamente nos noticiários, que muito provavelmente presenciou in loco seu autor residente em Chapecó. Pensar, portanto, num desfecho menos abrasivo, não é reduzir o peso do drama, mas usar a literatura como um meio de não compactuar com quem privilegia a perpetuação do problema. É ainda imaginar afeto no mundo.

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Livro: Morte Sul Peste Oeste

Editora: Taverna

Avaliação: Bom

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