A protagonista da novela

Arrisco-me a dizer que é improvável, para quem cresceu nos anos 1980-90, não ter sido tocado, de alguma forma, por uma novela ou um programa de auditório. Eu, por exemplo, não consigo remontar o cenário da minha infância sem as manhãs, em frente à tevê, assistindo aos desenhos animados do Xou da Xuxa, e sem as tardes de domingo em que meus avós ficavam ombro a ombro num sofá abóbora, vidrados no programa do Silvio Santos. Para essa geração, a minha geração, a teledramaturgia e as produções de entretenimento funcionam como uma chave que aciona gatilhos na memória, de modo a se estabelecer uma conexão coletiva no imaginário popular.

Rochele Bagatini usa exatamente esse nexo entre experiências do vivido e atrações televisivas para construir um argumento muito original em seu livro de estreia. Em Entre outras mil, a autora gaúcha costura a relação entre seus personagens principais por intermédio de um contexto do passado rebatido no roteiro de uma novela ou na dinâmica de um programa de auditório. É um laboratório de intertextualidade no qual a alusão não se dá entre textos, e sim entre o texto criado e a imagem do texto existente.

A substância catalisadora deste procedimento é a história de Raquel. Com um passado turbulento, no qual a mãe deixou a família e o pai morreu bebendo suas mágoas, a protagonista espanta a baixo-astral e encara o futuro com confiança absoluta que irá se tornar uma juíza. Para isso, durante o preparatório do concurso, vende cosméticos, demonstrando uma magnética descontração que se reflete em suas interações com Bete, uma amiga fissurada no corpo, e Carlos, o namorado devoto, gerente de um call center. Paralelo aos trâmites da rotina, a moça recorda momentos pretéritos, em especial a infância assistida pela tia Neusa, que assumiu o cargo de figura materna. Até que, sem sobreaviso, Sueli, a mãe desaparecida, reaparece. E com uma proposta completamente inusitada: promover o reencontro de ambas no palco de um programa de auditório.

Como visto nesta sinopse, Bagatini escreve com leveza, às vezes num estilo que pode soar despretensioso, porém com um poder de atração irresistível. Raquel é uma dessas personagens que, depois de três linhas, o leitor está encantado por ela. A verdade que transmite em suas atitudes, em sua personalidade, em suas falas, cativa de modo que é saboroso acompanhar seus dilemas e conflitos com o destino, mesmo quando visita episódios ruins.

Há ainda um signo de nostalgia, reverberado de passagens em que um fato dialoga com a televisão de outrora, por onde o olhar da narradora, ambiguamente adulto e pueril, estabelece pontes com representações que estão fora dos limites paginados, no reflexo da leitura. Quem nunca ficou tentado a escrever (ou escreveu) uma cartinha para o Xou da Xuxa? Quem não sonhou em ganhar (ou ganhou) algo impensável no Porta da Esperança? Raquel, sim, a despeito da sombra que espreita tais acontecimentos, contra a qual tudo se desenvolve através de uma expressão cômica. O plexo de sua história é naturalmente bagunçado e divertido.

Valendo-se deste recurso recreativo, a autora, de forma sutil e inteligente, incute em seu livro discussões sobre religiosidade, maternidade, erotismo e perdão. No entanto, se formos isolar o elemento que motiva o mais notável comentário social (como um objeto de estudo mesmo, um devir acadêmico), este seria a força simbólica feminina, no aguerrido de superar dificuldades, de não acuar diante de obstáculos, de se tornar a protagonista de uma novela de época, do imutável agora.

Viver uma aventura que é dela, mas também das referências que evocam, dos capítulos passados recheados de um efeito mnemônico, é plasmar um painel de sons, aromas e imagens no qual a televisão é uma presença que emana o drama existencial, nossas relações familiares. Como coloca a protagonista: A vida da gente mesmo é só um cruzamento de um ponto a outro, costurada com linhas de ônibus. A complexidade de um argumento, afinal, não precisa ser explorado de maneira estreita e amarga para fazer com que um enredo desperte a consciência crítica. A leveza bem aplicada num texto, o tom descompromissado, conquista o leitor com seu conteúdo de modo que, pego de surpresa, este se dá conta que está envolvido por pensamentos engajados. Para usar uma expressão oitentista, Entre outras mil é o maior barato.

***

Livro: Entre outras mil

Editora: Diadorim

Avaliação: Bom

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