Prisões do corpo feminino

Elas marchavam sob o sol, de Cristina Judar, é um livro-manifesto. Uma peça de literatura estruturada numa narrativa coral que verbaliza brados de protesto e de resistência contra formas de censura, de violência e de aprisionamentos concretos e metafísicos de mulheres. Em seu segundo romance, a escritora paulista reafirma seu propósito artístico de usar a ficção como instrumento de militância, denunciando perseguições de ordem política, social, religiosa e estética que assaltam o universo feminino.

Mesmo em contextos diferentes, é característico da obra da autora modular as vozes de suas personagens de modo a reproduzir, de conflitos internos e experiências individuais, a espoliação de um sistema que impõe sua tirania em escala coletiva. Um vozerio de timbres variantes, mas com igual poder de legitimar suas causas num mundo opressor.

O procedimento de construção do enredo é através da alternância de vários depoimentos, tendo como condutoras principais as adolescentes Ana e Joan. Num circuito de um ano, no qual irão atingir a maioridade, elas relatam, mês a mês (num belíssimo projeto editorial, diga-se de passagem), aspectos ordinários e extraordinários de suas vidas que, embora plasmadas em ambientes completamente distintos, reverberam a mesma sensibilidade crítica.

Ana é contemporânea, mora com os pais e o irmão, e sofre bombardeios de ditames do consumismo e inquietações relativas ao padrão de beleza. Ao passo que Joan se guia por um ideal constituído na relação primitiva com os elementos da natureza e influências místicas, adepta a rituais e mitologias próprios da religião wicca. Enquanto a primeira fica de short e camiseta polvilhada de farelos de salgadinho, assistindo a programa de televendas em meio a maquilagem e redes sociais, a outra prepara bebidas com ervas por onde acessa planos transcendentais para entrar em contato com entidades protetoras do território selvagem.

Um elemento que incide fortemente sobre ambas é a figura da vó. Para Ana, um símbolo de moralidade, que defende a tradição familiar e a austeridade dos deveres da maturidade, perpetrando em si a herança de um corpo-cativeiro. Na visão de Joan, por outro lado, a vó é a mãe que a acolheu na falta dos pais, ensinou sobre liberdade e os mistérios da espiritualidade, resistiu mesmo perseguida por ser vista como bruxa. Evocar outras personagens para suas histórias é a chave para que alguns deles ganhem fonia própria, dando novas perspectivas para o que foi dito e/ou expandindo o limiar da ficção para alcançar questões que encontram seus pontos de origem na realidade.

A vó e o tio retratam aspectos que envolvem Joan, ao mesmo tempo que discorrem sobre autonomia do corpo. Uma deusa fala sobre reprodução distendida, tratando indiretamente de abuso masculino. Um padre elucubra sobre supressão do desejo, que remete ao condão opressivo da religiosidade. Mesmo um feto conservado numa redoma de formol testemunha sobre o aborto imposto à sua mãe na adolescência, sendo uma espécie de materialidade de um sentido que perpassa todo o livro: o do confinamento. Situados neste magnético signo contextual, pequenos registros de mulheres que foram vítimas dos porões da ditadura militar brasileira completam o painel polifônico, a exemplo de segmentos de memória encarceradas num tempo de covardia, brutalidade e dor.

Contudo, montar um estrutura constituída por fragmentos movediços não é a única experimentação do romance. A presença do tratamento figurativo é tão intensa, que excede a linguagem e opera no conceito do enredo. Judar seleciona e articula palavras como que tecesse quadros escritos, combinando, de forma coesa e vistosa, confissões e enlevações imagéticas, passagens factuais e vibrantes abstrações. Deste modo, um artigo científico e o roteiro de um comercial se adere sem estranheza ao componente ficcional, permitindo a recorrência da excentricidade no plano onde a trama ocorre, pois a potência está na mensagem que ressoa dali. Deslocar-se da estética normativa é tirar o leitor da comodidade da tradição literária e instigá-lo a tomar caminhos nos quais a leitura deixa de ser um ato passivo.

Elas marchavam sob o sol é um destes casos únicos em que o empenho pela defesa de causas não afeta a qualidade da produção literária. No repasse de fatos que diferenciam e aproximam suas personagens principais através de suas vivências, o livro se conforma um espaço de discussão no qual o ataque sofrido por uma dessas partes tem o impacto de uma repercussão totalizante. Como declara uma das vozes: Quando fracasso, minha dor é ainda maior, pois falho por mim e por todas. Se há alguma conquista, não fiz mais do que o necessário. Sempre carrego algo além daquilo que cabe nas minhas extensões. Todo corpo feminino é uma expressão confessional e um símbolo de resistência.

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Livro: Elas marchavam sob o sol

Editora: Dublinense

Avaliação: Bom

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