O vento que arrasa

A questão da violência de gênero e do feminicídio tem ressoado de inúmeras obras de autoras latino-americanas. Seja através do relato factual ou do poder imaginativo, livros como Garotas mortas, da argentina Selva Almada, e Los divinos (2018, sem tradução no Brasil), da colombiana Laura Restrepo, partem de casos particulares ou do recorte de um panorama social para compor um documento verdade, uma peça de protesto, um libelo contra a intolerância e a brutalidade humana.

Temporada de furacões vem se juntar a esse coro de denúncia e revolta, na qualidade de ser (até então) o timbre mais retumbante. A novela da mexicana Fernanda Melchor tem arrebatado crítica e público desde o lançamento, e amealhado importantes prêmios dentro e fora de seu país, sendo finalista do badalado International Booker Prize.

Mas o que legitima estrondosa repercussão? A resposta está no ponto nerval do exercício de escrita: uma combinação magnética entre conteúdo potente e formato virtuoso.

A trama parte da achada, por um grupo de meninos, de um cadáver boiando num córrego fétido. É a Bruxa, uma mulher que herdou a fama de curandeira da mãe, a quem os habitantes mais antigos do povoado de La Matosa respeitavam e temiam. Com a reverberação da descoberta macabra, as suspeitas recaem sobre alguns rapazes que uma vizinha viu, dias antes, saírem da casa da vítima levando um embrulho no formato de um corpo. Os desdobramentos são guiados, assim, pela gana de elucidar o crime.

Apresentado desta maneira, o enredo dá a impressão de se etiquetar no gênero policial. E, sim, todo escopo é cerzido de modo a cumprir a rotina dos acontecimentos que arrolam o assassinato e a procura pelo assassino. O diferencial, aqui, está na proposta estilística de comandar esta investigação: através de uma narrativa de vertigem, tecida de forma pungente e avassaladora, no qual o andamento se dá a partir de um mecanismo de conjunções e disjunções, de vozes que se alternam e de movimentos temporais que ora contribuem para o esclarecimento dos fatos, ora recuam em cenas nebulosas e pensamentos desconcertados, tão próprio das digressões.

Fica a sensação de que o mote é, pouco a pouco, esquecido, e o foco se perde em dar protagonismo a personagens aparentemente sem ligação com o crime, contudo a estrutura fractal provará que a atenção dada a estes atores da trama será fundamental para a conclusão. Ainda assim, que fique de aviso que não é uma leitura das mais fáceis: os capítulos são compostos por blocos de texto, com orações dilatadas e uma prosa verborrágica que entremeia testemunho e história mental.

É uma escrita potencialmente imagética, que busca representar, por meio da linguagem crua e grotesca, a condição do ambiente e dos indivíduos que neste se confinam. La Matosa é um desses cantos sem Deus, órfão do amparo do Estado e regido pela corrupção moral e pela pobreza material, de onde convergem a violência de um erotismo perverso e sórdidas relações de poder. Há relatos de violação, pedofilia, zoofilia e distúrbios psicológicos, irradiados sempre por uma aura mística, um entendimento supersticioso de um mal presente usado, de forma desprezível por determinados personagens, para legitimar atos de misoginia e de homofobia.

Em função da nacionalidade e da localização numa cidade fictícia, a novela de Melchor evoca a Comala, de Pedro Páramo, com seu desencanto e presença viva de dramas íntimos e sociais, porém, por conta de seu contexto, de sua habilidade em transfundir veracidade e invenção, o argumento se inspira diretamente em Las muertas (1977, sem tradução no Brasil), clássico de Jorge Ibargüengoitia que romantiza o caso das assassinas em série conhecidas como Las Poquianchis. Não por menos, a autora toma emprestado um trecho expressivo do livro como epígrafe: Alguns acontecimentos aqui narrados são reais. Todas as personagens são imaginárias.

Temporada de furacões cresce neste cruzamento de gêneros, valendo-se do terreno de possibilidades que se abre entre a ficção e a não ficção, para fazer de um caso de feminicídio o prisma de todos, para transformar as meninas e as mulheres violentadas e mortas em seu enredo num reflexo regional de crimes de ódio e de machismo. Escrever com uma voragem linguística é a forma de Melchor denunciar o estado de ruína de sua sociedade. E, assim, dar sentido a toda simbologia que há no título: um vento que arrasa e deixa exposto o que resta de podre e selvagem.

 

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Livro: Temporada de furacões

Editora: Mundaréu

Avaliação: Bom

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