A dialética da matilha

Pelas circunstâncias que se apresenta inicialmente, Cães dá a impressão de ser um relato memorialista sobre a relação afetiva da autora Júlia Grilo com Cafeína, uma cadela que se encaminha para seus últimos dias de vida. Essa ideia, porém, se desfaz ao fim do terceiro capítulo, quando a ruptura do gênero se impõe sobre a forma narrativa, embora a chave de virada venha bem antes, quando ainda não é de conhecimento do leitor. Logo nas primeiras linhas, a narradora comenta ser natural de uma cidade no interior da Bahia, na qual foi descoberta a exploração de mão de obra escrava em pleno ano 2000. Empregado como uma observação en passant, tal estigma social será predominante na conversão extrema do atributo ficcional, tornando a experiência de leitura do romance numa estreia promissora.

Ainda que iniciante e bem jovem, Júlia demonstra domínio na construção de um enredo cujo conceito formal é influenciado pelo pós-modernismo. Um texto no qual as amarras se dão pelo magnetismo entre vários modos de se narrar, de estilos que convivem e se transfundem desde o fluxo de consciência ao discurso inconfiável, passando pela interpretação figurada e a adesão de espectros políticos, históricos e sociais. É um testemunho (supostamente) autobiográfico, que parte da infância fazendo as vezes de um relato de formação, mas também um extrato desse mesmo conteúdo transformado numa alegoria, quando a perspectiva da trama sai do ângulo humano para o canino.

A partir do momento que Cafeína foge de casa (e, consequentemente, ganha sua liberdade), a história mental da menina que amadurece no sertão baiano, numa fervura de crônica familiar e autoconhecimento, avança paralela à deambulação da cadela pelas ruas, conhecendo outros cães, experimentando sentimentos e descobrindo toda uma hierarquia clandestina e organização de tarefas que há na matilha selvagem. A autora faz uma analogia forte ao comparar a humanização dos cães em liberdade com os escravos que, do instante de alforriados, deixaram de ser vistos e tratados feito bichos. Por isso, os cachorros falam, pois os escravos livres “ganharam o dom de se expressar”.

Mais que um exercício de imaginação, o texto impõe uma crítica aguda aos atos de subordinação e ao autoritarismo ainda comum (ou principalmente) no Brasil de hoje, evocando a literatura de Orwell de A revolução dos bichos e uma atração inevitável à Baleia, de Vidas secas. À medida que a autora aprimora o antropomorfismo de seus cães, um movimento elíptico ocorre na inversão de papéis entre bichos e humanos. Um jogo dialético que aproxima as hastes contextuais ao gênero ensaístico, buscando em hipóteses filosóficas e antropológicas um canal para examinar o atrito entre animália e nossa condição de animal racional preponderante a todos os outros.

O contraponto central se dá com Duquesa, uma outra cachorra, mais velha, da casa. Enquanto Cafeína é impulsiva, transgressora, ávida pelas possibilidades humanas, Duquesa se mostra resignada com sua posição domesticada, submissa em relação aos seus donos. Trabalhar esse contraste sob o signo social amplia o fator crítico do enredo, chegando à analogia mais impactante do livro, quando a autora compara o ato de colocar o cães para cruzarem a um estupro.

Mesmo com o retorno, nas páginas finais, de uma narrativa emotiva e existencial, são os fragmentos que instigam a reflexão moral que dão qualidade ao romance. É impossível para que tem cão (ou mesmo qualquer outro animal de estimação) não ficar intimado a pensar na maneira com que trata seu bicho. Só ao abraçar essa proposta e conseguir tocar o leitor fora dos limites paginados, Júlia Grilo já merecia ser lida. Mas a autora vai além, deixando claro que ainda está em formação, mas começando com muita maturidade.

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Livro: Cães

Editora: Penalux

Avaliação: Bom

 

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