O tempo no plexo do caos

Críticos de literatura têm complexo de cão guia. Muitas vezes levam o leitor a caminhos que, ao próprio autor, não passam de paredes escuras. Porém é irresistível, para um romance motorizado por uma saga memorialista, de uma autora mineira, cujo personagem central se chama Pedro Naves, no qual a narrativa se comporta como um jorro construtivo, não ser fisgado pela comparação com Baú de ossos, obra seminal de Pedro Nava. A ambientação cognitiva e a diapasão da escrita faz do romance do médico mineiro um modelo sedutor de espelhamento para o novo livro de Anita Deak. E que isso seja claramente entendido como um elogio, pois No fundo do oceano, os animais invisíveis é um produto literário de identidade própria e, sem dúvida, um dos melhores lançamentos de 2020.

Ao que diz respeito ao enredo, o mecanismo de tessitura opera dentro de uma história mental com aspecto de relato de formação. O protagonista delimita um espaço de consciência da infância ao prelúdio da vida adulta, onde situa a cidade de Ordem e progresso. Neste território campesino, modula experiências do vivido na fazenda que conviveu com os pais e os irmãos menores, além do testemunho de uma associação involuntária com a natureza. Uma visão manifestada de matizes, cheiros e ruídos acerca de um passado emplastrado sobre um cenário de mata, animais e rio, através do qual flui um tecido constituído de reminiscências, representações e recriações.

Recapitula-se, assim, uma cadeia de fatos em que a filiação a um núcleo familiar, regido por uma mão patriarcal e conversadora, envolto em crenças e costumes arcaicos, vai sendo desfeita à ocasião de encontros com personagens transitivos. A indígena Anahí desperta a percepção para uma existência mais profunda de integração com a selva, enquanto Sara, filha de um militante de esquerda, provém o conhecimento dos livros e um alargamento intelectual de mundo. Lutando contra as âncoras deste microcosmo, Pedro Naves terá ambas se revezando no papel de bússola moral, volitiva e, num futuro, ideológica. Rompe com a sina hereditária e vai estudar na cidade de pedra, onde se reencontra com Sara, agora governada por ideais revolucionários, e politizado e tocado pela repressão institucional, integra o movimento de resistência à ditadura militar que se estabeleceu na região do Araguaia, tornando-se soldado da guerrilha no coração da selva amazônica.

Há um trabalho cuidadoso de experimentações vocabulares, composições visuais e teores sinestésicos de modo a fazer do ambiente selvagem uma espécie de entidade que, nas duas fases da vida do protagonista, age feito um espectro onisciente, promovendo uma sensível simbiose entre natureza e humano. Durante a luta armada, atua de protetora; na infância, é a interlocutora entre o menino e os simbolismos do corpo. Tal enlace transcendental é o engenho da escrita que se conforma por meio de uma prosa vistosa, intensa, eminentemente sonora e dotada de uma poesia que não advém do gênero, mas de combinações intuitivas de palavras vibrantes, de uma harmonia no plexo do caos.

Anita Deak consegue empreender um feito extraordinário de apuro técnico, que é narrar uma história de modo não linear, saltada em fragmentos, mas que pareça perfeitamente ordenada para o leitor. O segredo está no uso do tempo como um signo linguístico. É o tempo o significante e o significado de todo o enredo. O elemento com o qual a autora subverte o modo de estar da realidade, proporcionando uma percepção simultânea de visão momentânea e experiência totalizante. De um parágrafo a outro, ou muitas vezes no mesmo parágrafo, um pequeno fragmento do vivido desencadeia a apreensão do quadro total, interserindo passado e futuro.

Pedro Nava foi um escritor tardio que voltou-se para sua própria genealogia a fim de caracterizar um método de composição e um estilo de linguagem, através dos quais o discurso da memória se configurava numa vasta e emaranhada paisagem sempre a se completar. Em seu segundo livro, Anita Deak alcança nível semelhante de competência e força criativa, deixando uma grande expectativa para o que está por vir. Parafraseando o protagonista de seu vigoroso romance, agora é colocar o tempo em estado de espera.

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Livro: No fundo do oceano, os animais invisíveis

Editora: Reformatório

Avaliação: Muito bom

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