Ponto final de um casco

Poema mais conhecido da polonesa Wislawa Szymborska, “A alegria da escrita” faz as vezes de epígrafe em Um cisne na noite, da psicanalista Regina Taccola.

Nos versos, que dão conta da apreensão artística, o eu lírico se sobreleva aos montes da criação, mostrando que, muito mais que um mero observador, este detém o controle do andar da pena. Para sempre se eu assim dispuser nada aqui acontece./Sem meu querer nem uma folha cai/nem um caniço se curva sob o ponto final de um casco, sentencia.

É uma escolha simbólica, pois Taccola extrai, dessa representação estética, aquilo que caracteriza seus textos: o rigoroso domínio das ligaduras do enredo, a intransitiva precisão. São 31 contos enxutos, de frases bem marcadas, para se ler num só fôlego. Concêntricos ao feitio de capturas de um ponto de tensão no cotidiano.

“Caça ao tesouro”, que abre a coletânea, representa bem essa assinatura de estilo. Um estudante vasculha a areia da praia em busca de qualquer coisa que possa vender para comprar um presente para a namorada. De repente, ele dá de cara com um cordão de ouro semienterrado, mas, ao puxá-lo, algo grotesco vem junto.

Fica subentendido que a história secreta é muito mais interessante que a principal, porém o narrador nunca perde o foco. A mesma solução se dá no ótimo “Gim tônica”, onde uma memória sanguinolenta de infância insurge durante uma atividade banal, atraindo os olhos para fora da história enquanto o trânsito dos fatos segue em frente.

Outro artifício utilizado é o movimento do compasso. Em “A morte de Tarzan”, algo gerado no passado guarda o disparo de uma cena que fará uma volta completa no espaço-tempo até ser acionado no futuro. “Ela mandou buscar o mar” tem a mesma estrutura, mas com uma modulagem mais branda, delicada, ao narrar uma avó que ensina a neta a vislumbrar o mar no céu e, quando adulta, é a neta que leva a avó até o mar para vislumbrar a cura para uma doença.

O tons variam, e os aspectos textuais se configuram a partir de qualidades mais ou menos realistas, de motivos para registrar a vida através de um sentido concreto ou figurado. De uma forma ou de outra, os personagens estão em busca do contato humano, às rédeas de conflitos que se refletem no outro ou no próprio interior.

“Mulheres” e “Gavião” são duas pérolas de composições distintas. O primeira trata de um encontro de percepções entre uma ex-esposa e a nova amante, num ambiente baldio, enquanto o segundo é uma onda de sensações tenras e imagens plásticas que, de súbito, arrebenta-se numa explosão de violência.

Contos, a exemplo de “Boa moça”, que enredam situações do prosaico dia a dia, marcadas por atos de crueldade, vingança, traição remetem aos textos do gigante Luiz Vilela, povoados por criaturas medíocres que se metem em intrigas e embates num nível entre o simplório e o absurdo, num ponto de fração para o insólito.

Vide “Um cisne na noite”, que batiza o livro, uma mirada sobre uma sonâmbula que sai pelos telhados das casas, desnuda pelo vento, como uma entidade que encanta os boêmios e põe em risco sua candura, passeando pelo plano onírico na sordidez das ruas.

Talvez uns pecadilhos estejam em certos tratamentos metafóricos e usos renitentes de figuras de linguagem, em especial as onomatopeias, sempre evitáveis. Cinco contos a menos também fariam bem à antologia, mas também pode ser capricho do crítico. O fato de não ter um eixo de coesão permite uma leitura sem ordem, impulsionada pelo prazer de ser surpreendido por uma história, aos olhos frugais de quem desvira uma série de polaroids de modo a desvendar o que é a imagem capturada.

Por outro lado, um olhar mais atento vai descobrir uma autora determinada a extrair, da forma breve, todo o poder de concisão que proporciona ao autor, como referencia o poema de Wislawa Szymborska, A alegria da escrita./O poder de preservar./A vingança da mão mortal. daqueles que têm pleno domínio sobre o universo que criou.

 

 

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Livro: Um cisne na noite

Editora: Jaguatirica

Avaliação: Bom

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