Paraíso de possessão animal

A despeito de um argumento central simples, Natureza morta, romance de estreia do piauiense José Fontenele, é norteado por um conceito que pretende uma complexidade estética através de um jogo de espelho e contraste entre parte e contraparte de um drama galvanizado por tons absolutamente distintos.

São duas maneiras de se decifrar uma mesma história, de facear dois pontos de vistas apoiados no sentido real e no figurado, no senso comum e no nonsense.

Na trama, Laura e Damião vivem o desmoronamento do casamento, depois de sofrerem duas perdas gestacionais num curto intervalo de tempo, que repercutem, em maior e em menor escala, em suas ruínas psicológicas e existenciais.

O primeiro a falar é Damião. Recepcionista de um hotel mediano, ele tem de lidar com uma fauna de hóspedes que, invariavelmente, dão margem à situações bizarras. Sua ambição é assumir a gerência. E a tensão pela conquista do cargo, somada ao caos da vida pessoal, subverte sua percepção do mundo para a de um bestiário ambulante.

Seus olhos têm a capacidade de ressignificar as pessoas à feição de animais via representações guiadas por traços físicos ou temperamentos. Na rua, no ônibus, no trabalho, ele é tomado de assalto por um desfile de seres antropomórficos; homem-gorila, mulher-gato, homem-leão-marinho, mulher-pássaro etc.

Todo dia era forçado a ultrapassar bicos, penas, patas, narizes que ninguém sabe o nome, cascos, asas, falsos pés, e toda sorte de animália possível. Por vezes fingia soneca em pé ou sentado para não ter que encarar aqueles meio-homens-meio-animais pelo caminho (…) na contaminação do dia a dia, quando os animais passavam por mim, sentia a espinha doer, ameaçado pelo ambiente das feras, assim o personagem descreve sua rotina.

Em casa, a crise conjugal se intensifica com a chegada de um hipopótamo que se apresenta escritor e de um ser sub-reptício, escamoso, que declara estar ali para fazer as vezes de tutor de sua esposa no trabalho com a pintura. Porém, com o passar dos dias, os animais não param de chegar e de ocupar os cômodos, culminando num zoo fora de controle e na decisão de Laura de cometer um ato drástico em vias de fuga.

O livro, portanto, passa a ocorrer pela perspectiva dela, que conduz a segunda parte. Todo circuito de bestas, de estranheza e de manipulação da realidade é posto de lado, de modo a imperar um relato de caráter humano, desataviado, no qual a carga alegórica se desfaz para a entrada de uma narração pragmática dos fatos.

Laura conversa com uma psicanalista sobre os filhos natimortos, recebe visitas da mãe e da irmã, conhece uma figura eminente do mundo das artes que se oferece a assessorá-la na montagem de uma exposição, aceita fazer da sua casa uma residência literária, a fim de estimular sua inventividade.

A presença-ausência de Damião tem uma influência marcante na direção dos acontecimentos, mas agora, diferente do que antes se tinha visto, suas atitudes são tóxicas, passando de vítima para agente do destino. É um dos pontos de virada que demarcam o enredo, erradio pelos veios que trilha, do fantástico à metalinguagem.

Fontenele pesa a mão no tratamento metafórico do texto. Plasticamente, funciona muito bem. Os momentos em que descreve um mundo habitado por homens-fera são instigantes, sedutores, dotados de uma atração imagética que traz à memória alguns contos de Murilo Rubião (“Teleco, o coelhinho”, “Alfredo”); de Amilcar Bettega, no excelente Deixa o quarto como está; e, sobretudo, as narrativas bestiais de Juan José Arreola, nas quais o escritor mexicano conforma “espessos paraísos de possessão animal”.

Por outro lado, o autor erra na dose ao fazer uso do mesmo procedimento na costura da prosa que, em alguns trechos, soa afetada ao se entregar a lugares-comuns e analogias evitáveis, ainda que a montagem do livro dependa do uso abundante das figuras de linguagem. Contar uma história pela chave figurada não é entender o clichê como recurso.

Outro problema diz respeito ao argumento que, por ser simples e conciso, acaba se tornando alongado demais na terceira parte, onde as vozes de Laura e Damião se alternam em capítulos curtos. O autor até recorre a artifícios formais para despistar esse esgotamento, mas é visível que o conflito central foi estendido mais que o devido.

A sorte é que as últimas páginas guardam uma reviravolta interessante, que convida o leitor a repensar certos pontos da trama e traz à tona um significado deixado em suspensão no prólogo. São esses pulsos de criatividade que entremostram um autor ousado, seguro, que, em sua estreia, não se garantiu numa fórmula convencional, apostando na transfusão entre gêneros, na experimentação. Falta apenas afinar a execução da escrita.

 

 

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Livro: Natureza morta

Editora: Moinhos

Avaliação: Regular

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