Representação púbere do sobrenatural

Em Sobre a escrita, algo próximo de um volume de memórias, Stephen King reserva alguns capítulos para revisitar os bastidores de criação e de publicação de Carrie, sua estreia literária. Para quem não está ligando o nome ao balde de sangue, o livro trata de uma tímida adolescente reprimida pela mãe ultra religiosa que, depois de sofrer o bullying supremo no baile de formatura, usa de seus poderes telecinéticos para destruir tudo e todos que vê pela frente.

Lá para o fim do relato, King confessa que, de fato, nunca gostou da personagem, considerando-a “uma versão feminina” dos estudantes responsáveis pelo massacre de Columbine. Ainda assim, continua, ele a entende e tem pena dela e de seus colegas, “porque muito tempo atrás também” foi “um deles”.

Não é incomum um criador defender sua criatura, mas, ao traçar um paralelo com assassinos reais, o Rei do Terror cruza os limites da ficção e se mete num território belicoso que dá conta de questões relativas ao existencialismo contemporâneo: o fato de alguém ser vítima de bullying, de alguma forma, legitima seus atos de vingança? Se somos produtos do meio, uma sociedade violenta é, inevitavelmente, composta por pessoas violentas, entre as quais é aceitável o convívio sob o signo da brutalidade?

Em Lauren, Irka Barrios abraça o debate, usando, assim como King, o cotidiano de uma adolescente vítima de tirania religiosa em casa e de chacota na escola, para discutir a formação da violência numa chave sobrenatural. Há muito de Carrie na construção da personagem que dá título ao romance de estreia da autora gaúcha.

Acima do peso e antissociável, a estudante é chamada de bucho, baleia, sapona, além de sofrer humilhações físicas. Fora da escola, tem de suportar a pressão da mãe para se render aos dogmas da igreja comandada pelo pastor Lair. Fanática pelo líder religioso, Ivete não dá ouvidos a filha, quando Lauren relata as investidas libidinosas do pastor. Para piorar a situação, a adolescente ainda é perseguida por visões assombrosas, que a faz duvidar se não carrega um mal dentro de si.

Até que certo dia, depois de ser confrontada por três garotas no banheiro da escola (apud Carrie), ela quebra o nariz de uma delas e as coisas tomam outro rumo. Maurício, um estudante vaselina, convence Lauren a participar de lutas de boxe clandestinas contra outros estudantes (meninos e meninas), que funcionam como uma válvula de escape que aciona o gatilho para a violência, num ciclo contínuo. A adolescente permanece à margem da popularidade, alvo dos apelidos, mas agora sua “estranheza” passa a ser temida e serve de estudo psicológico que, no movimento de contextura do livro, proporciona uma segunda leitura da personagem.

Tal como em Carrie, o arco dramático de Lauren se estrutura numa série de metáforas referentes às transformações do corpo, ao não pertencimento, aos primeiros fogos da puberdade, ao (auto)descobrimento do prazer, à confusão causada pelo despertar de sentimentos. As manifestações sobrenaturais surgem dessas turbulências internas, na esteira de experiências traumáticas nas quais desconcertos emocionais são representados por aparições de seres obscuros, demoníacos, visões perturbadoras.

Irka se sai bem na retratação de conflitos e surtos na vida de uma adolescente, assim como na contextualização dos impulsos e dos signos que (des)orientam a atual geração de jovens: aplicativos de celular, redes sociais, ataques virtuais, memes. Em dado momento, um personagem questiona a legitimidade de uma informação, então outro declara que a pegou no Youtube e aquele aceita o argumento, como se a plataforma de vídeos fosse a tábua da verdade absoluta.

Aliás, mesmo construídos a partir de arquétipos, os personagens são bem delineados e têm suas importâncias na trama, que avança num bom ritmo e numa linguagem simples, desataviada, atraente. Porém, um bom ritmo não significa uma boa condução, e aí está o grande problema do romance.

Da segunda metade em diante, Irka parece não saber para onde ir com a história e acaba andando em círculos, repetindo cenas que tornam o texto expositivo, repassando detalhes que tinham ficado claros (e esgotados) episódios atrás. Há também introduções de subtramas que não se fecham apropriadamente, e a tentativa de fazer conexões futuras com a trama principal soa forçada ou como uma saída possível. O que acarreta num fim anticlimático, desmantelando toda expectativa causada pela atmosfera de tensão.

Faltou, a exemplo de Carrie, um momento de catarse em Lauren.

 

 

***

 

 

Livro: Lauren

Editora: Caos & Letras

Avaliação: Regular

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