Moinhos que andam ao contrário

Dizer que os poemas de Um jogo bastante perigoso se distanciam dos fundamentos tradicionais da poesia em favor de uma liberdade comum à prosa não é, de todo, precisar os aspectos que configuram as manifestações líricas da portuguesa Adília Lopes.

Seus versos têm algo do relato da crônica, um eu lírico tomando o papel meio que de observador, meio que de comentarista, de modo a se valer da captura de uma cena ou da narração de um episódio para constituir o que poderia ser classificado como poesia do instante.

Todo processo de contextura entre o que experimentou o corpo e decantou para um fundo subjetivo é o diesel para o mecanismo de construção do momento poético. Dessa forma, temos essa solução estética na qual a concretude do mundo, a vida física, serve para ilustrar vínculos que dizem respeito aos planos das sensações e dos símbolos.

Escrever um poema/é como apanhar um peixe/com as mãos/nunca pesquei assim um peixe/mas posso falar assim/sei que nem tudo o que vem às mãos/é peixe, assim a autora descreve o fazer literário, no poema “Arte poética”.

Em “Luna Parque”, seu texto mais comemorado, esse teor testemunhal abre espaço para um exercício de transição, em que a fala parece se extrair de uma comunicação com um interlocutor que pode ser o leitor, ao mesmo tempo que a própria voz interna. Adília propõe, a todo momento, o escopo de um diálogo na estruturação de seus versos.

Vou dar-te um presente/eu gosto de presentes/é uma caixa de jóias/é tão bonita/dentro está um anel com uma pedra preciosa/porque é tão grande?/toma/porque é tão grande?/toma/cuidado/dentro está um anel com uma pedra preciosa, de “O presente”.

Outra constante é a atração pela literatura, não apenas como um meio decifrável de expressão ou de acessos contemplativos, mas ainda como chave de intertextualidade.

No poema “Memória para Esther Greenwood”, por exemplo, a autora evoca a personagem do romance A redoma de vidro, de Sylvia Plath, uma mulher deprimida que, entre tantas tentativas, buscou a morte por afogamento, para detalhar um banho e seu efeito purificador.

(…) não acredito no baptismo/nem nas águas do Jordão/nem em nenhuma coisa desse género/mas pressinto que para mim/um banho quente/é como a água sagrada, e agindo em fechamento episódico, o poema termina com o fim do banho.

Nitidamente, há a presença do ingrediente satírico na composição, que se repete outras vezes, e, noutras vezes, converte-se em algo mais amargo, instigante.

Por isso, pensar em independência na poesia de Adília, é frequentar mutações, ressonâncias e transcender modelos clássicos de estilo, formato e métrica, de modo a acessar uma maneira de se apresentar para o mundo que pode ser tão banal como conhecer alguém na praia ou decodificar desse encontro uma encruzilhada existencial.

O que me custou/foi tudo ter acabado/como tinha começado/como se nada tivesse passado/durante/ora o que se passou durante/ainda hoje me incomoda/e portanto deve ter acontecido, narra, em “A salada com molho cor-de-rosa”, a relação com outra mulher, no jeito tênue e esgarçado da crônica.

Um jogo bastante perigoso, enfim, estabelece um painel de imagens diversas e variações narrativas que subvertem até mesmo o gênero que lhe serve de matéria, privilegiando uma atitude de quem não está nem aí para o sublime poético, pois, como declara a própria autora, “os poemas que escrevo/são moinhos/que andam ao contrário.

 

 

***

 

 

Livro: Um jogo bastante perigoso

Editora: Moinhos

Avaliação: Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s