Na margem fria da página

Muito por conta da dimensão que tomou sua antecessora, a segunda tese sobre o conto, formulada por Ricardo Piglia, é pouco citada, embora, a meu ver, seja a mais interessante. Depois de cunhar a frase irresistível a nove entre 10 reflexões críticas acerca da forma breve – Um conto sempre conta duas histórias (10/10 continua sendo o nocaute de Cortázar) -, o escritor argentino dá seguimento a seu raciocínio, teorizando que: A história secreta é a chave da forma do conto e de suas variantes.

Trocando em miúdos, Piglia argumenta que a versão moderna do conto deixou de lado a estrutura fechada e o final surpreendente, de modo a trabalhar a tensão entre duas histórias (o relato visível e o relato cifrado) sem nunca resolvê-la. Assim, o mais importante não se conta. A história é construída com o não-dito, com o subentendido e a alusão.

Pois veio-me à mente a segunda tese do conto nos moldes de um manual, logo que terminei a leitura de “Lembranças dos teus familiares”, conto que abre O verão no fim do mundo, antologia que marca a estreia de Luís Augusto Farinatti na ficção. O professor gaúcho dá forma a uma narrativa densa, atmosférica, em que todo circuito de acontecimentos é impulsionado por um elemento central que nunca se revela de fato, descrito (apud Piglia) “de modo elíptico e fragmentário”.

O texto se inicia com o narrador sendo intimado a dirigir até uma cidadezinha na fronteira com o Uruguai, levando seu avô e dois tios para o enterro de um terceiro tio, isolado do mundo por um motivo obscuro. Chegando lá, tudo é lânguido e enigmático. Os três homens estão sempre sussurrando entre si, agindo à sombra dos acontecimentos.

Então, durante o velório, aparece um jovem, que se identifica vizinho do morto, dizendo coisas aleatórias, que deixam os presentes atentos. O sepultamento ocorre, os três voltam a falar em segredo, daí o avô aparece com um número de telefone e ordena que o narrador ligue, embora não diga para quem. Os fatos seguintes serão instigantes, ainda que muito de seus desdobramentos ocorram na mente do leitor, num exercício preciso de contextura lacunar.

Farinatti demonstra controle desse cerzir delicado de compor personagens e seus conflitos por meio de sugestões. O efeito no desempenho da leitura é um sentido de precedência que traz a impressão de que a parte da história inexplorada é tão importante do que aquela que está em curso. E o resultado dessa dissociação entre pensamento e ação, que deixa o leitor meio que perambulando pela margem fria da página, é um final que naturalmente também não se fecha.

“Laranja azeda”, o conto seguinte, foca no drama de Madalena, uma senhora solitária, que cede parte de seu terreno para um “sobrinho que criou como filho” erguer sua casa e uma oficina mecânica, e é surpreendida quando este mesmo “sobrinho que criou como filho” entra com uma ação judicial para lhe tomar o terreno.

Não se sabe o porquê da decisão. O ponto central são as consequências desse ato oculto, condenando a personagem a uma rotina de superar suas limitações físicas de modo a acompanhar o andamento do processo, cujo desfecho (ainda que insinuado) permanecerá encoberto.

Outra vez o cenário é sem vida, tíbio, embolorado. Aliás, a paisagem é um componente de enredo que sempre ganha atenção; inclusive, muitas vezes, usado em chave imagética. A composição espacial tem endereço em cidades do Rio Grande Sul, propriedades rurais, fronteiras. Porém, outras regiões também sediam algumas das tramas.

É o caso do gradativo “Copacabana”, que segue a rotina ciosa de um sujeito que cuida da mãe senil, até a visita da noite dar uma guinada na maneira de se ver as coisas. Já “O rio pela janela” trata do encontro entre egressos afetivos num apartamento em Paris, possivelmente no texto em que se faça mais explícita essa relação entre o relato visível e o cifrado. Ninguém poderia entender precisamente o que significa para mim ter Clara aqui, no apartamento, nesta cidade tão distante para onde fugi derrubando tudo que estava no meu caminho e queimando os campos por onde passava de modo que impedisse a mim mesmo de voltar a procurá-la, o narrador sublima a imprecisão.

O conto que dá nome ao livro, por sua vez, é de um procedimento curioso, pois o não-dito decorre da incapacidade de dois de seus personagens atestarem, para o leitor, os fatos. Um casal de velhos recebe um hospede por uns dias, e a falha na memória vai construindo uma narrativa repleta de buracos e retornos. Intrigante.

Porém, se adotarmos esse estilo elíptico como aspecto narrativo, o problema surge justamente quando o autor abandona esse ambiente claro-escuro. Alguns contos apostam numa estrutura mais fechada, apresentando enredos com amarrações óbvias e demonstrações de seus traçados, que buscam, inclusive, uma densidade romanesca.

Estão longe de serem ruins, no entanto contrastam com o método tão bem executado nas melhores narrativas, evidenciando que se trata de uma antologia composta de textos escritos ao longo do tempo, e não de textos escritos para serem agrupados a partir de uma escolha nuclear (de acordo com um mesmo tema, ou um mesmo estilo, ou um mesmo formato…).

Isso é mau? Não, certos livros de contos do supracitado Cortázar foram montados assim. Fico só o lamento (e talvez mais do leitor que do crítico) de o autor não ter se fechado nesse modelo de escrita dado à duplicidade, no qual apenas um lado da história se revela; ou melhor, engana quem lê, fingindo ser outro.

 

 

***

 

 

Livro: Verão no fim do mundo

Editora: Modelo de Nuvem

Avaliação: Bom

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