Dentro da tempestade cerebral

Enquanto se prepara para um evento empresarial, a personagem-título de Mônica vai jantar, novela de Davi Boaventura, tem de lidar com o desnorteio causado pela notícia de que, horas antes, seu marido foi flagrado se masturbando dentro de um ônibus.

O conflito entre se arrumar para uma ocasião trivial e (a tentativa de) processar um ato inexplicável dará forma a um fluxo de consciência frenético, sem pausa ou uso de pontuação, que compreenderá as noventa páginas do segundo livro do autor baiano.

Mônica entrará numa tempestade cerebral que vai demolir suas bases afetivas, pôr em xeque suas certezas futuras e instalar o medo de que está, a partir daquele momento, dividindo o apartamento (sozinha) com um assediador, quem sabe um predador sexual.

Boaventura estrutura esse trânsito de pensamentos em três linhas narrativas que se alternam, atropelam-se, confundem-se: a descrição dos atos em curso (tomar banho, escolher a roupa, o sapato), o autoquestionamento do porquê de seu marido ter feito o que fez, e uma sorte de digressões, que dão conta desde o ambiente de trabalho até a qualidade de certos produtos de beleza.

O experimentalismo, inerente ao formato, ganha distensões em certos momentos, contudo o autor demonstra habilidade para convertê-las em soluções estéticas, evitando a afetação da linguagem e movimentos que levam o texto de um lado para o outro sem, de fato, ir a lugar nenhum.

Embora lotada de divagações e quebras de raciocínio, a trama avança, mesmo que a personagem não avance. E há um bom trabalho de retratação dos dilemas, dos sentimentos ambíguos, da perturbação nas reações físicas da protagonista, no comportamento para com a realidade que, abruptamente, transforma-se.

Talvez o leitor familiarizado com a história mental sinta falta de uma atmosfera mais densa de tensão, indícios de assombros e de uma certa paranoia.

Existe a tensão, mas esta se estabelece na articulação de um espaço aberto para um debate envolvendo machismo tóxico, a relação íntima entre homem e mulher, o desejo e o livre-arbítrio. Tudo posto sem maniqueísmo, da forma mais natural possível, integrado aos trâmites da ficção.

Mônica vai jantar pode ser lido de uma vez só, porém a ressonância da voz que contém em si tem o poder de instigar por dias.

 

 

***

 

 

Livro: Mônica vai jantar

Editora: Não Editora

Avaliação: Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s