Aventuras sexuais de um lobisomem

Guia literário para machos é uma reunião de 21 breves narrativas que se sucedem de maneira independente, ao mesmo tempo que estabelecem uma ideia de unidade, como se os textos dessem conta das aventuras porno-literárias de um mesmo personagem, compiladas numa novela.

Usando o primeiro conto, “Poeta viado”, como base, temos esse narrador hedonista, que rouba livros ou páginas de livros para vendê-los, desfilando um conhecimento variado acerca da literatura enquanto põe em prática artimanhas de modo a ganhar uma grana ou comer alguém.

Para isso, lança mão de argumentos dos mais controversos, montados em convicções e reflexões que não se acanham em cometer incorreções ou regar polêmicas. Seja no trato com o sexo oposto (Gosto de bater em mulheres. Me dá tesão), ou quando comenta sobre a vida de determinados escritores (aqui, a do grego Konstantinos Kaváfis):

Kaváfis fazia qualquer coisa pelos seus homens. Um poeta viado, por fim. Na verdade, todo poeta é viado. Tem de ser. Um personagem do Roberto Bolaño dizia que os romances são heterossexuais e a poesia, coisa de bicha. E tem razão, arremata.

No texto seguinte, “Vantagens de aprender”, o narrador (também um ladrão de livros) faz dinheiro com a venda de monografias e teses acadêmicas (assim como o protagonista do conto anterior), perturbado pela miséria causada pelo vício em livros e pela impossibilidade de redigir um diário sobre suas experiências na qualidade de larapio. Sua contraparte seria o escritor romeno Nicolae Iorga, cuja produção literária (dizem) soma 1.250 volumes de textos ficcionais e outros 25 mil artigos.

Não quero escrever tanto. Não poderia fazê-lo. Tenho de foder. Foder. Não me sobra outra coisa. Nem para mim, nem para os outros, conclui.

É possível distinguir, já a partir dessas duas narrativas, um estilo muito particular de condução textual e integrações sintáticas. Orações precisas e afiadas que se movimentam por meio de um andamento descompassado, de maneira a alcançar o impacto de uma tirada ou de uma frase de efeito.

Outra característica marcante é a frequente alternância de assunto, muitas vezes de uma frase a outra, na qual o narrador resgata referências das mais diferentes fontes para defender seu ponto de vista. Em “Vantagens de aprender, de novo”, as experiências do narrador ladrão de livros vai das andanças de um primo que contrabandeia charutos do Paraguai ao poeta John Ashberry, passando por romances de J. M. Coetzee, Machado de Assis, Guimarães Rosa, até chegar a uma lição de vida extraída dos livros de Richard Dawkins.

Mais à frente, a retórica-brucutu do ator Steven Seagal convive com o enredo de Crime e castigo, de Dostoiévski, de modo a se refletir sobre a violência.

E, por mais estranho que pareça, funciona.

Embora regulado por descrições de sexo de alto teor erótico, por uma fala grosseira, subversiva, há uma intenção contextual que nunca se perde, que deixa claro que todo o livro se sustenta sobre uma estrutura ambígua, camadas sobrepostas na qual o apelo do escândalo serve como um despistamento para todo um fundo de erudição.

Em sua estreia literária, o catarinense Caléu escreve sobre a literatura, porém uma literatura drenada de todo sumo especial, de toda a aura de uma expressão superior. São os despojos que lhe servem de matéria de composição, os aspectos bibliográficos que podem ser expostos sem reverência, sem regras de decoro e perversão.

Daí seus personagens serem tão mundanos, tão livres para comparar a leitura a qualquer outro ato vulgar, um sexo vazio ou um prazer efêmero, de alguma forma irradiando uma crítica a uma sociedade em que os escritores se tornaram mais celebrados que suas obras. Livros são feitos para vender como qualquer outra coisa, afirma.

É muito comum, no caso de autores estreantes, notarmos o peso de suas influências no compósito de sua escrita. Caléu subverte essa norma, convertendo suas influências em referências para produzir uma literatura com identidade, de caráter experimentalista e autoral.

Uma boa metáfora está no próprio texto: uma mistura de lobisomem com um ser com casco. Um cavalo, por assim ser. Em vários sentidos.

 

 

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Livro: Guia literário para machos

Editora: UFSC

Avaliação: Muito bom

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