Viagem pela condição feminina

A vida de Alice Zulmira Sánchez de Lima Oliveira foi forjada pela inadequação.

Filha de uma espanhola e de um português, fugidos da ditadura de António Salazar, a menina desembarcou aos engulhos na Bahia de Salvador, convivendo com uma brasilidade repudiada pelos pais, que consideravam a nova pátria uma “terra de negrada insana e lasciva”.

Em oposição (e por birra) à indumentária tropical, Concha, a mãe, enviava a filha à escola com moda da Espanha, e olhos críticos “a quaisquer meneios de misturar-se aos hábitos da gente nativa”, reforçando o lema de que estavam, “em superioridade, um degrau acima desses ilhéus pardos”.

A sorte da garotinha foi a presença de um cachorro de nome Midraj, que um pouco lhe “salvou a infância exilada”. Tratava-o como o irmão que não teve.

O tempo, então, corre e a autoridade dos pais vai se rareando, a ponto de Concha se equivaler a “uma brisa” e o pai se tornar tão pequenino quanto um camundongo. Alice compra um hotel, casa-se, tem dois filhos, no entanto a sensação de não pertencimento continua a lhe habitar.

O marido, Rafael, passa os dias isolado no porão, escrevendo livros que ninguém irá ler. Os filhos, crescidos, seguem sem direção pela vida, próximos da inutilidade.

Ia se repetindo (…) a sensação de incompetência ao engendrar essa pequena geração de medianos sem maiores encantos, a reunião desabrochada do que de pior, ela e Rafael, traziam em si. Sobretudo pela certeza de que multiplicar-se no mundo não aplacava a solidão que era sombra fixa e inelutável a acompanhá-la.

Daí ganha forma um sentimento inesperado por um hóspede. O sueco Ingo Schuster, a quem atribui de imediato o caminho para a salvação; “o amor não vivido, que então desesperadamente àqueles olhos começava a inventar”. Desperta-lhe ideias e desejos.

Largar tudo e “sair mares afora”. Deixar para trás o hotel erguido, os papéis real e imaginário de “filha da mãe brisa e do pai diminuto, herdeira do mundo europeu desconhecido, a mulher do marido ausente, a mãe dos filhos banais, a nora da matrona malvada, a amante do amante flutuante, filha dos sonhos de Europa”.

A Europa passa a ser seu destino, seu mapa para um lugar que fizesse desaparecer a contínua impressão de estrangeira de seu mundo.

Alice Zulmira embarca num navio para se transformar em Zuma, para se transformar na travessia do Atlântico rumo a Portugal e a Espanha de seus ancestrais, encontrar suas origens, descobrir-se enquanto mulher e, por conseguinte, reconhecer a natureza reprimida da sua sexualidade.

Em seu segundo romance, Começa em mar, a paulista Vanessa Maranha investiga circunstâncias da condição feminina, transitando por estados mentais de uma personagem tomada por conflitos internos e externos, de modo a tocar em temas como afeto, lealdade, solidão, autorreconhecimento e liberdade.

Alice, porém, não protagoniza a trama em absoluto. Duas outras personagens (ligadas a ela) irão contribuir para o andamento fragmentado da narrativa, lidando com experiências que, embora em camadas menos existenciais, enquadram-se nesse contexto dramático da mulher versus apreensão de mundo.

Sendo assim, o sentido de maternidade adquire a função de chave de enredo. A relação entre mãe e filha, entre mãe e filhos, entre a mulher e seu reconhecimento como mãe, entre a mulher enquanto mãe do marido; e, tão forte quanto, o entendimento de terra-mãe, de pátria, a distinção do lugar de ascendência, de voz, de fonte de legado.

Maranha demonstra uma sensibilidade afinada para decifrar as motivações e os anseios de suas personagens, tocando em situações densas envolvendo matrimônio, arbítrio, aborto, estupro, culpa e autoengano. No entanto, por mais que trate de assuntos representativos, é fundamental separar importância temática e composição estrutural.

O mar, aqui, tem um papel de destaque; mais que o de um personagem, e sim de uma entidade, um deus do destino. E, de alguma forma, a autora emula seu movimento na condução narrativa, dispensando um fio condutor claro, que acaba por fazer do romance uma montagem de cenas.

A opção por um intenso tratamento metafórico (sobretudo nas primeiras páginas), ainda que estabeleça uma textura poética que se desdobra em imagens delicadas e profundidade estética, não se encaixa na tentativa de dar dimensão psicológica para Alice, chegando a um flerte com o realismo mágico fora de tom.

O que tem influencia direta da linguagem muito requintada, sintaticamente próxima do português erudito, deixando o texto caudaloso, com ritmo pesado, e por vezes com a sensação de que a autora buscou uma sonoridade na ordem das palavras, mas acabou criando uma coleção de maneirismos.

Uma prosa mais simples (como se apresenta em certas partes do livro) teria um efeito muito mais atraente e fluído, ao verbalizar conflitos de tamanha complexidade.

 

 

***

 

 

Livro: Começa em mar

Editora: Penalux

Avaliação: Regular

Um comentário sobre “Viagem pela condição feminina

  1. Eu me deixei absorver totalmente pela aventura de Zuma, na Bahia, na Europa e de volta à Bahia. Encontrei uma voz firme e original, uma protagonista com o peso, mas também a convicção das escolhas que fez (e acho isso bem positivo, porque algumas narrativas tendem a vitimizar os personagens centrais). A linguagem, em alguns pontos, acabou cansando sim. Mas isso é um detalhe tão pequeno perto do olhar original da autora. Gostei muito.

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