Viagem em busca de um carro

Os incontestáveis, de Saulo Ribeiro, segue a fórmula dos road books, os “livros de estrada”. Aqueles estruturados durante a travessia de um ou mais personagens de um ponto a outro, de modo a dar conta de um conflito que pode ser de diversas naturezas.

Aqui, dois irmãos que tentam recuperar um carro que pertenceu ao pai quando eram crianças. Mau (Maurício) e Bel (Belmont) cruzam as estradas do Espírito Santo, dirigindo um Opala amarelo 76, ao som de Black Sabbath. A missão é achar e comprar o Maverick laranja ano 75, que o pai vendeu, num tipo de acerto de contas com o passado e vingança tardia. O véi Ramiro não queria que nada dele fosse nosso, mas esse maveco vai ser, decreta Bel, o mais velho.

Assim, eles vão atrás de uma informação, que leva a outra, e depois a outra, avançando muito além do que inicialmente esperavam. Dois dias de viagem demarcados por circunstâncias que vão do cômico ao bizarro, nas quais topam com uma soma de personagens, entre aqueles que ficam à beira do caminho e os que lhes acompanham até o fim.

É um formato batido, mas Saulo consegue prender a atenção do leitor pelo dinamismo com que conduz a narrativa e, sobretudo, pela inteiração entre os protagonistas. Os diálogos são muitos bons, ágeis e espirituosos, servindo para delinear as personalidades de cada irmão e permitindo divisar trechos de suas infâncias, sem pausar o fluxo e lançar mão de flashbacks.

Não por menos, essa é a melhor parte. Centrada na relação entre os dois, na qual se observa Mau e Bel singrando o tempo e o cenário corrediço, conversando, lembrando, lidando com decisões abruptas e pistas falsas. O autor consegue transmitir, a partir da forma como se distinguem e se assemelham, uma sintonia de afeto que ecoa de um fosso de memórias negativas, porém que empreendem um sentido fraternal para ambos, uma espécie singular de lealdade.

A certa altura, eles decidem dar carona para uma jovem, e a inserção de uma terceira personagem no interior do carro muda não só a dinâmica entre os irmãos, mas a condução do livro. Ainda que o propósito inicial não se altere, surgem imbricações que freiam o andamento, direcionando a trama para questões fora do liame familiar.

O encontro do carro deixa de ser o desfecho, para se tornar uma etapa para algo inimaginável. Pensando como enredo, não se encaixa devidamente. Contudo, dentro da lógica dos protagonistas (principalmente a de um deles) faz todo sentido. É preciso ficar atento a o que/quem é, de fato, o combustível da viagem.

Os incontestáveis foi adaptado para o cinema, e esse é um foco narrativo que bem condiz com o efeito estético apresentado pelo autor. Não se trata de um romance de imersão, e sim de um livro que posiciona o leitor na mirada dos acontecimentos, presenciando a passagem das cenas a uma certa distância, processando-as até que se acabem. Isso não se refere à qualidade, mas à proposta. E, dentro da proposta dos “livros de estrada”, Saulo Ribeiro se sai bem.

 

 

***

 

 

Livro: Os incontestáveis

Editora: Cousa/Patuá

Avaliação: Bom

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