Uma história de amor e de zumbi

Alguns livros – pela potência do conteúdo, pela singularidade com que resolvem seus temas – conseguem transcender o próprio contexto e fazer sentido fora de seus limites paginados. Ao fim da leitura de A mulher faminta, de Tiago Germano, veio-me à memória o soneto “O poeta pede a seu amor que lhe escreva”, do espanhol Federico García Lorca. Em nenhum momento, o poema é citado no romance de estreia do autor paraibano. E Germano e Lorca estão separados por um oceano e um século.

Diz assim a primeira estrofe: Amor de minhas entranhas, morte viva,/em vão espero tua palavra escrita/e penso, com a flor que se murcha,/que se vivo sem mim quero perde-te. É incrível como, com algumas sutis adaptações, os versos conseguem ilustrar a ideia central do livro. Uma história sobre como o fim de um relacionamento amoroso resulta – metaforicamente? – num tipo de “morte viva”. Ou melhor, num processo irreversível de zumbificação, que começa nas entranhas e infecta toda a extensão anímica.

A trama, aliás, tem início com a sensação de que algo decomposto recende no ar. O protagonista desperta confuso e anda em meio ao caos que bloqueia a passagem. A televisão passa um filme em modo contínuo, ao redor “um cânion aberto por pilhas de livros e papéis assume o espaço que os poucos móveis não conseguem preencher”. De repente, o interfone toca. É o porteiro interrogando se não há algo estragado no forno ou na geladeira. A vizinha está reclamando. Ele não tem certeza do que aconteceu e do que fazer. Mas realmente “tem algo morto naquele apartamento”.

Toma uma ducha gelada e vai trabalhar. Está atrasado, como de costume. O editor do jornal lhe passa um sermão e manda que cumpra suas tarefas do dia. Ele se encaminha à sua mesa e percebe que trocaram sua cadeira por uma com defeito. A trapaça foi feita por Lorna, uma repórter recém-chegada. De imediato, ele a confronta, e a discussão em torno do direito pela cadeira é o primeiro contato do que vai se tornar uma relação de atração e rejeição, autoenganos e descobertas, identificação e estranhamento.

A válvula de descompensação está no passado recente do protagonista. O fim do namoro com Mayra, que lhe devastou emocionalmente a ponto de se medicar com ansiolíticos. Ele mesmo vai reviver esse trauma, por meio fragmentos que se configuram um tipo testemunhal de escrita. Assim, Germano estrutura seu livro na alternância de dois planos narrativos: a história no presente, e esses relatos pregressos sobre uma paixão negativa, que incidirão sobre o rumo do relacionamento entre o protagonista e Lorna.

Outras formas de crise

Há uma ambição muito clara de estabelecer um recorte geracional. Sim, é uma história clássica de amor e falência, porém inserida no contexto atual de uma geração que parece perdida na transição entre a adolescência e a vida adulta, que se mostra incapaz de vencer seus medos e encarar o futuro de frente. Os sonhos estão ali, mas colocados num patamar de difícil alcance. Ou, talvez, todos estão letárgicos demais para tentar alcançá-los, domados por um misto de alienação e de melodramática autopiedade.

O autor consegue transmitir essa busca por um sentido na vida de maneira coletiva e no fosso particular, que engloba níveis de formação que vai da descoberta da sexualidade até uma tendência – metafórica? – de suicídio. Para isso, recorre a uma soma de referências que estão nas expressões artísticas, na cultura pop e no comportamento juvenil. A sensação de crise, no entanto, não se resume ao drama humano. Em suas andanças por esse universo fabulado da Paraíba, Germano chama atenção para problemas urbanísticos e tensões sociais, além de dissecar o cotidiano de uma redação de jornal, explicitando o declínio do setor; a crônica da morte anunciada dos grupos editoriais de massa.

Esses trânsitos de um olhar introspectivo para um mais amplo são feitos com segurança e habilidade, nunca se configurando uma tergiversação ou um artifício para armar circunstâncias que impulsionem a trama. O texto de Germano é fluente e bem cuidado, construindo e governando seus personagens através das consequências de suas ações ou da maquinação dessa incômoda paralisia. Os avanços e os recuos temporais ocorrem de maneira harmoniosa, encaixando-se bem no exercício do passado ser definitivo para moldar o presente.

A certa altura, o autor recorre a um efeito de metalinguagem, que é válido, pois aproxima novamente a narrativa da ideia central do amor como um vírus que permanece mesmo após o fim da relação, corroendo por dentro, fazendo com que cada nova paixão seja um mero paliativo, incapaz de curar esse organismo meio-morto, morto-vivo.

Nos últimos versos do soneto de García Lorca, o eu-poético implora ao seu amor que enche, pois, de palavras minha loucura/ou deixe-me viver em minha serena/noite da alma para sempre escura. De uma forma ou de outra, o protagonista de A mulher faminta sempre estará em sua noite escura, desde que foi contaminado pelo mais primitivo e intratável dos sentimentos.

 

 

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Livro: A mulher faminta

Editora: Moinhos

Avaliação: Muito bom

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