Olhar nonsense sobre saga familiar

Morto em março deste ano, o escritor Victor Heringer acaba de ter seu primeiro romance relançado. Glória foi originalmente publicado em 2012, e levou um prêmio Jabuti.

A trama acompanha um núcleo repartido da família Alencar Costa e Oliveira por duas décadas. Com ares de crônica doméstica, a saga se inicia às vésperas do Natal de 1989, em Copacabana, quando Noemi deixa o pato queimar no forno. A fumaça atrai o marido e os três filhos – Daniel, Abel e Benjamim -, que se deparam com a ceia arruinada.

A mulher, então, exclama: Deus é, era, gago. Era. Era gago, confirma o marido, e as crianças riem. É um tipo de xingamento de estimação da família, que vai se manter latente ao longo da história e revelar a chave de ironia e nonsense pela qual o livro ganha forma.

Dois anos depois, o marido morre após degringolar de barba farta, aficionado pelos poemas do russo Maiakóvski. Embora o laudo médico indique infarto no miocárdio, todos estão convictos de que a causa da morte foi desgosto, pois essa é a sina que persegue sua genealogia, uma condenação hereditária.

O tempo dá um salto mais elástico, e os irmãos se encorpam homens feitos.

Abel decide estudar teologia e se forma pastor protestante, passando anos de exílio na África, até retornar ao Brasil, casado, com a missão de erguer sua própria igreja na cidade de Santa Maria Madalena, local onde reside D. Letícia, um dos bastiões dos Alencar Costa e Oliveira, comprometida em redigir em cadernos a história da sua linhagem.

Daniel se casa com Ana. Torna-se um bem-sucedido burocrata, tem um filho e vive (naturalmente) infeliz.

Benjamim, embora mais velho, é o que permanece mais tempo morando com a mãe. Gradua-se em museologia, para trabalhar próximo às obras que lhe reavivam a condição de artista frustrado. As horas vagas passa num fórum de internet chamado Café Aleph, no qual os participantes batem papo escondidos atrás de avatares que levam nomes de escritores, filósofos e demais figuras de intelectualidade. Ali, Benjamim é Hecateu de Mileto. Ali conhece Natália, casam-se e vão morar no bairro da Glória.

De modo que, em função de um simbolismo (também) geográfico, a maior parte do foco narrativo recai sobre Benjamim. Ele serve de colchetes para abarcar capturas das andanças dos irmãos, da mãe e de outros personagens incidentais que são ou estão relacionados, por tantos motivos, com a família.

Além disso, esse plano central é, ora em vez, infiltrado por excertos totalmente desligados entre si, a exemplo da notícia de um óbito, da biografia acidental de um mendigo e do relato de uma infestação de formigas. Heringer aposta numa estética experimental, a partir da qual seus fragmentos textuais navegam na mesma direção, sem precisar ser da mesma estirpe. E assim também ocorre com o dispositivo de enredo, subvertendo o conceito clássico da saga familiar, ao cuidar de tudo de forma contida, licenciosa.

Nada é grandioso, nada foge do trivial e de uma baixa voltagem que se prende a uma soma de cacos, efeitos interessados em exaltar a galhofa recorrente, o tom de deboche e de uma transgressão formal que, por conta da representação do gênero, parece tentar se afiliar a um entendimento pós-moderno.

Curiosamente, as referências mais claras são importadas de outra concepção literária: o realismo (o mágico e o machadiano). Paira sobre a trama esse clima indistinto, um tanto absurdo, que indica uma maquinação dos fatos fora de um contexto natural. Há fantasmas borgeanos aqui e acolá; ventos que parecem soprar de Macondo. A obra de Machado de Assis é tão presencial, que certas passagens conformam-se como num exercício de intertextualidade.

O problema é que essa multiplicidade de referências, quando vista como base para a ficção, não consegue estruturar uma mensagem e o leitor fica, de fato, sem compreender qual foi o sentido pensado para o livro, senão um mero jogo ficcional ou um tipo de anedota que só o autor entendia. Isso fica muito claro quando, a certa altura, surge a informação de que o que se está lendo pode ser os tais escritos de D. Letícia, num plano regido pela metaficção. Não fica claro, parece que sim.

Glória, afinal, funciona se a leitura contornar os capítulos-acessórios e focar nas glórias e nas desgraças do trio de irmãos.

Sem essa liberdade, resta um emaranhado de cenas que, pouco a pouco, denuncia que o autor foi sendo sabotado pelos próprios elementos que convocou para guarnecer seu conteúdo. Nitidamente, é um romance de um escritor ainda em formação.

 

 

***

 

 

Livro: Glória

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Regular

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s