O mais alto grau da distopia humana

A publicação de O berro do bode, segunda coletânea de contos de Verena Cavalcante, retoma a motivação da autora paulista de construir narrativas a partir de um conceito que poderia ser rotulado de distopia humana.

Ao contrário da ideia de utopia, em que se vislumbra um estado ideal, de plena harmonia, a distopia se caracteriza pela realidade dura, pela deformidade.

Verena situa esse entendimento num universo significado pela infância.

Seus personagens são crianças ou indivíduos que carregam pesado essa fase de descobertas severamente fraturada por atos de corrupção que advêm da maldade de uma figura adulta, da violência social e/ou familiar, da perversão, da loucura. De modo que não há outra possibilidade de existência, senão se deteriorar física e moralmente.

A sacada de Verena é nunca melodramatizar as histórias com o pendor do vitimismo. O leitor pode até se condoer a esses relatos penetrantes, mas acaba por ficar decerto confuso por conta do estranhamento que expressam e conduzem essas vozes.

É uma dicção pueril, ora um tatibitate ora um testemunho de timbre quebradiço, que trata de coisas absurdas com uma ingenuidade apavorante. Tudo se converte, assim, para uma circunstância de delírio, de uma fantasia fabricada para filtrar um horror que a leitura vai revelando mansamente.

A diferença de O berro do bode para o livro anterior é a influência patente de um sentido de bestialidade.

Os animais frequentam os contos tanto de forma presencial quanto simbólica, ganhando o protagonismo ou aparecendo na condição de coadjuvantes.

No excelente “A tempestade”, uma menina decide ser um cão e tal escolha, aparentemente ilustrativa, vai lhe neutralizar o comportamento humano, exilando-a num submundo urbano relegado aos bichos vadios, até seu próprio corpo manifestar características licantrópicas.

O caráter alegórico do texto se dispersa num brutalismo que não encontra impacto na secura devido ao estilo adotado pela autora.

Verena dá forma às suas narrativas através de frases longas e compassadas, pródigas em imagens, com a intenção de armar uma atmosfera meio de fábula, meio de pesadelo, como eram, em outros séculos, as histórias infantis. A linguagem flerta com o erudito, ressoando inevitavelmente um lirismo impróprio aos assuntos eleitos.

Faz lembrar, inclusive, os versos mortiços de Augusto dos Anjos: Vês! Ninguém assistiu ao formidável/Enterro de tua última quimera./Somente a Ingratidão—esta pantera.

Essa cornucópia de cenas bizarras e sensações desvairadas seguem pelos contos “Um pardal pousa na janela” e “Bonecas” (esse, brutesco), escalonando ao topo em “Porquizôme”, um surto narrativo que entrelaça fios de momentos, de modo a criar uma malha de som e fúria, um tecido de plasticidade rubra.

O intrigante é que, mesmo em meio à torrente, os textos preservam algo secreto, como uma informação insidiosa contida entre frestas, no claro-escuro.

É um efeito provocante de leitura, que serve também para dar intensidade à visão de mundo constituída pelos olhos da criança; aquela que passa por situações de abuso sem conseguir ter a dimensão clara e real do que está ocorrendo. O conto-título articula muito bem tal subentendimento, por meio de um fundo metafórico.

O berro do bode, portanto, com seus textos de mesmo caráter narrativo e apropriação de certas circunstâncias recorrentes, consagra Verena Cavalcante como uma autora que cria um conceito para, a partir de sua aplicação, impor à sua literatura um inconfundível senso de identidade.

 

 

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Livro: O berro do bode

Editora: Penalux

Avaliação: Muito bom

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