Tudo está completo por ser ausente

A primeira coisa que salta aos olhos em Na outra margem, o Leviatã, de Cristhiano Aguiar, é o desafio de enquadrá-lo num gênero.

Talvez um livro de contos que tencionam uma unidade, talvez um romance fragmentado?

Eu me arrisco a dizer que são narrativas livres, cujos fios se esbarram em determinados momentos, ligando as histórias de um elenco de personagens.

São três os atores principais da trama, ao redor dos quais orbitam uma dezena de outros, em menores participações, porém com presenças decisivas para cada um deles.

Lucas, Natanael e Faustine. Três jovens adultos que dividem um apartamento em São Paulo, à procura de pertencimento e da compreensão do estado das coisas.

No presente, eles se relacionam como que motivados a decifrarem as angústias de seu tempo, o porquê de estarem ali e a cidade como uma espécie de entidade coletiva, que esmaga feito pedra e mastiga feito bicho a todos que por sua extensão transitam, guiados por dramas internos, velados.

Todos lidam com turbulências do passado, que se desdobram em subtramas de condutas digressivas, até retornar ao que pode ser pretendido como eixo.

Não há um centro, de fato; um núcleo duro. O fluxo narrativo passeia pelo cotidiano desses personagens com sinuosidade e incertos enquadramentos, de modo a conformar e empilhar cenas a exemplo da estrutura de um móbile, um efeito labiríntico no qual nunca se revela o todo.

Naturalmente, há uma irrestrita liberdade no manejo da forma, mas também no do conteúdo. O enredo são esses recortes de tempo, de vivência, que se comunicam ou não, tratando de política, relações familiares, ditadura militar, urbanismo, perdas, ilusões modernas, utopia, alteridade, caos social.

O fundo simbólico é equivalentemente rico, referenciando de passagens bíblicas à fábulas, de mitologia ao realismo fantástico. Aliás, o trecho final é uma pérola de estranhamento, tragando o leitor para uma realidade tão ordinária ao mesmo tempo que alienígena, que rutila na última frase com uma visão apoteótica.

Nada está completo ou tudo está completo justamente por ser ausente, em Na outra margem o Leviatã.

Uma diatribe à receptividade do leitor convencional, contudo uma obra escrita com requinte, técnica, catalisadora de imagens poderosas, belíssimas, que reverencia as artes plásticas, estimula os planos sensoriais e flerta, inclusive, com a metalinguagem.

Tudo se solidifica e se deforma, constata, à certa altura, um dos narradores. Cristhiano Aguiar triunfa no que deforma: a literatura e a forma de absorvê-la.

 

 

***

 

 

Livro: Na outra margem, o Leviatã

Editora: Lote 42

Avaliação: Excelente

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