Um banho de sangue com purpurina

É notável quando um escritor foge dos temas recorrentes na literatura de seu tempo, e consegue transcender a experiência da leitura, proporcionando a sensação da vivência de um experimento. Glitter, de Bruno Ribeiro, é um desses casos. Algo raro e excitante.

O romance é ambientado dentro de um shopping, cenário de um brutesco reality show. Vinte modelos problemáticas e/ou decadentes são trancadas no período de um ano, sem qualquer acesso ao mundo exterior, com a obrigação de encerrar o jogo com a entrega de um poema de sua autoria e a execução de um desfile.

Tudo filmado ininterruptamente, e transmitido em rede nacional e pelo site com o nome do evento La Poésie Vivant.

No começo, como se pode imaginar, tudo é uma festa. Vestem roupas de marcas famosas, leem revistas internacionais, comem do melhor.

Três meses depois, quando descobrem que as provisões não serão repostas, os primeiros surtos começam a irromper. Só quem tem permissão para entrar são os assistentes dos organizadores, chamados de estagiários, embora estejam longe de serem socorristas. Agem justamente para eletrificar e intoxicar mais ainda as circunstâncias.

Não custa, então, para cada uma das modelos revelar seus demônios e ativar comportamentos bestiais. Nada, porém, pode preparar a todos para o final extravagante do show; a realização de um acontecimento banhado a litros de sangue e muita purpurina.

Ribeiro conduz sua trama por meio da polifonia. O livro, inclusive, pode ser rotulado de romance-coral; aquele em que determinados personagens ganham voz e vão se revezando continuamente na direção da narração.

Aqui são três: Eva de Castro, uma ex-ubber model, que teve tudo de si roubado para ser forjada A modelo; Lana Almeida, irmã caçula de uma top model, que traz um passado recente de abusos perpetrados pelo ex-marido Guilherme Boaventura, idealizador do reality; e Viddi Santhiago, organizador do evento, cão de guarda inescrupuloso de Guilherme Boaventura, a quem reverencia como um deus e se entrega sexualmente.

Cada qual será responsável por dar tração à história em curso (ora por pontos de vista distintos, ora por complementares), executando ainda recuos temporais nos quais são explorados desde o passado remoto da infância até a sequência dos meses de confinamento.

Passagens são moldadas pelas interações entre os participantes do experimento, pelas reações e seus resultados drásticos, por visões de mundo totalmente deturpadas, pelas memórias marcadas por traumas, perversões e terrores psicológicos. Também estão inseridos ali certos segredos, que se conformam em interessantes reviravoltas.

O autor se sai muito bem ao introduzir, na montagem de sua trama, elementos e termos específicos do universo da moda, e, mais ainda, ao dar forma a três personagens inseridos num mesmo espaço, tratando de assuntos equivalentes, contudo com estilos próprios de descrever e de decodificar o que está ao redor.

Isso tem um efeito muito positivo na edificação da estrutura psicológica, sublinhando claramente a motivação e as fraquezas de cada um narrador; e, até mesmo, para inesperadamente desconstruí-las e se revelarem cadafalsos para o leitor.

É expressivo o aspecto de história mental, cuja narração se constitui de um fluxo que vai de dentro para fora. No entanto, a armação textual também se completa dos poemas abortados pelas modelos; verdadeiros cacos de espelho do que viveram quando crianças ou do que acabaram de presenciar.

E aqui fica o alerta ao leitor de que Ribeiro não economiza na escatologia, no grotesco, no pornográfico, na violência extrema. Não é o caso de botar o dedo na ferida, e sim enfiar ambas as mãos dentro da pele e ir rasgando a carne até vir à tona as entranhas.

Se fosse para erguer um totem de referências, seria uma combinação entre a literatura do norte-americano Chuck Palahniuk com a do japonês Koushun Takami. Vide o poeminha escrito pela participante Miss Universo: A fama é uma simbiose/moldada por uma fimose/operada por um açougueiro/e embrulhada pela sorte.

Há um tempero sardônico, satírico, mordaz, que se recende à uma crítica contundente sobre a indústria da moda e a sociedade de consumo – nós, comedores de imagens, adoradores de celebridades instantâneas, espectadores de programas sensacionalistas, seres anestesiados diante do chocante, do infame.

Dentro desse espaço dramático-ficcional, esse exame minucioso se dá através de uma série de transgressões morais, da escala de um absurdo que se sobrepõem ao absurdo da realidade e, escandalosamente, acomoda-se com perfeição. Ligue a televisão, está tudo lá.

Glitter (cujo significado simbólico, no enredo, é extraordinário) trata da loucura sistemática que tomou conta do mundo, feito um vírus que não mata, mas que deixa o organismo enfraquecido a ponto de qualquer baixa devastá-lo; que corrói a consciência coletiva, dando margem e autonomia a pensamentos doentios como esse:

Aqui estou assumindo tudo: sou pedófilo e pronto. Nasci desse jeito e sou apaixonado por crianças, seja menino ou menina. Seja o filho dos outros ou minha filha. A ideia de pedofilia é muito errada. Existem inúmeros tipos de pedófilos, inclusive os que não são ativos, como eu. Existem os violentos e os leves. Muitos pedófilos (como eu) não gostam dessas pornografias abusivas que existem na internet. Existem agências que tiram fotos profissionais de menores de idade e elas são bem eróticas e não há nada de agressivo nelas. Eu nunca quis machucar crianças. Em meus sonhos, eu sempre estou dando prazer para elas. Deixando-as felizes. Sou perturbado? Acho que sim, mas isso é uma fantasia, nunca irei concretizar. (nunca nunca nunca) Muitos pedófilos machucam as crianças, e eles sim são loucos! Eu não sou assim! Caçando na internet, o underground da rede, vemos coisas terríveis. Pedófilos que sentem prazer torturando crianças das formas mais terríveis possíveis. Eu não sou assim! Eu não sinto prazer vendo um homem peludo prendendo as pernas de uma criança de 6 anos de idade no chão com pregos. Não mesmo! Eu gosto da pureza. Nos meus sonhos, eu imagino elas com cabelos negros, bochechas grandes e piercing no nariz. Tão puras… Para evitar que eu faça algo no meio da noite, eu sempre coloco algum pedaço de carne no congelador. Quando dá meia noite, eu pego o pedaço de carne e enfio meu pau nele, até sentir a porra vazar. No dia seguinte, minha família come a carne assada ou frita. Minha filha mastiga aquilo com tanta convicção. Seus lábios avermelhados engolem tudinho, sem deixar nenhum restinho pro papai aqui. Isso me faz bem. Isso faz com que meus pensamentos continuem presos na minha mente. E é assim que deve ser. É tudo um sonho… Tudo um sonho.

O romance de Bruno Ribeiro coloca o roteiro de Neon Demon no chinelo, e deixaria salivando Lars von Trier.

 

 

***

 

 

Livro: Glitter

Editora: Moinhos

Avaliação: Muito bom

3 comentários sobre “Um banho de sangue com purpurina

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