Engenho luminoso da forma

Uma das imagens mais bonitas que pode ser feita do processo de escrita é compará-lo a uma tessitura.

Frases que se aliam a outras frases, compondo uma trama que se revela à medida que se forma; um todo que, embora abstrato, ganha concretude quando marcado no papel, quando a apreensão da ideia se transforma na história subsequente ao girar do tear pelo autor.

Em Ilhós, Carol Rodrigues dá corpo ao tecido literário de maneira remansosa.

A novela, que sucede a premiada coletânea de contos Sem vista para o mar, constitui-se a partir de um esmero na escolha das palavras; uma atenção para a ordenação, o sentido e a sonoridade; um encadeamento de compasso harmonioso que se assemelha ao trabalho feito à mão.

Como se forma e o que se forma são as preocupações da autora. A forma.

Estabelecer um fazer literário no qual o formato tenha a capacidade de criar o conteúdo, durante sua constituição estrutural. Um enredo que não se acomode ao formato, mas que faça parte (intrinsecamente) da construção desse formato, sem que seja (abertamente) sobre essa realização.

Um jogo, como bem colocado. No prólogo, Carol determina suas regras: O texto deve ter dois personagens. Um deles só vive no tempo; o outro, no espaço.

(Em tempo, o leitor não consegue distinguir quem é quem)

Assim, há dois planos narrativos que, embora sejam conduzidos pelo mesmo estilo de linguagem encorpado, intenso e lírico, ocorrem através de perspectivas distintas.

Num discurso em terceira pessoa, é narrada uma cena-sequência de Juliette, que está no processo de urdidura de um tapete, quando uma agulha se quebra. O olhar do narrador a acompanha, de maneira quase invasiva, da saída de casa até o local onde pretende substituir o objeto.

O outro plano é comandado pela voz de Joanis, um pescador que vive na ilha de Cairós, onde tem de lidar com um amor nocauteado pela presença perversa do irmão.

É interessante como a autora ilumina seu texto com um tom fantasioso, que fica, em certas partes, entre o onírico e o lúdico. Carol ainda brinca com algumas palavras de sonoridade parecida, a exemplo de “ilha” e “ilhós”, instigando uma proximidade entre a ficção e as engrenagens dessa ficção.

Porém sem pôr em risco a grande surpresa final, que é admirável. Quando o leitor se dá conta da engenhosidade que se deu diante de seus olhos, é tomado por um desconcerto prazeroso.

 

 

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Livro: Ilhós

Editora: e-galáxia

Avaliação: Muito Bom

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