A arte de criar fantasmas em pedaços

Fazendo de conta que a estrutura literária é uma placa de vidro, ao soltá-la da altura de trinta andares temos Felicidade, de Wellington de Melo.

O romance são os estilhaços ocasionados pela queda; o produto de uma ruptura que preserva tênues sinais de sua configuração original, mas, de maneira prática, não passa de fragmentos distantes e desproporcionais, incapazes de empreender sentido.

Não que a literatura deva ser um compósito harmônico de forma e conteúdo, tampouco se submeter a um formato leniente e convencional. Porém, a literatura deve sempre estar para o leitor. Oferecer-lhe um ponto de conjuntura, um eixo onde este possa atrelar sua linha de raciocínio. E isso falta aqui.

O que pode se apreender sobre o enredo é o seguinte: Ademir faz parte de um grupo de ativistas denominado Movimento Cidade Plana, que se utiliza de meios digitais para protestar contra a verticalização urbana. Para chamar atenção para a causa, os integrantes pretendem saltar dos prédios mais altos da cidade e transmitir tudo ao vivo.

Ocorre que o ato político acortina um pacto de suicídio em massa. O circuito ainda é atravessado por dramas pessoais e/ou familiares, envolvendo traumas de infância, mortes, invasão de privacidade, rede de mentiras e indução de emoções fabricadas.

Há de se convir que os assuntos abordados são interessantes e bem oportunos para a atualidade.

A gentrificação provocada pela especulação imobiliária, a corrupção que se expande do senso particular para o coletivo, o extremismo de pensamentos, a manipulação da consciência a serviço de uma missão (supostamente) de guerrilha, quando de fato se dispara rumo ao vazio; neste caso, “a queda, um abismo”.

O problema está na maneira escolhida para dispor o texto. A despeito de uma voz subjetiva que delineia toda a história, uma mixórdia de outras vozes se atropelam na montagem de cenas que subvertem qualquer noção de tempo e de espaço no conduto de uma cacofonia renitente que atordoa e incomoda.

Fica claro que, através de uma linguagem frenética, disparatada, o autor busca o efeito de confusão, de representar as inquietações dos personagens nos diálogos e no descompasso da narrativa. Até consegue. Mas é sobremaneira desordenado que, a certa altura, o leitor perde completamente o foco, por não entender quem é quem, quem está falando com quem, onde estão e qual, afinal, é o propósito de tudo aquilo.

No meio disso, a elevação de um subtexto aponta ainda para um debate sobre criação versus realidade, e como discussões da ordem do dia – raça, gênero, igualdade social – são usadas para a defesa de interesses suspeitos, na condição de peça de manobra. Não fica claro, contudo, se é uma crítica ou um panfleto.

Resta a constatação de que Wellington de Melo se perdeu na criação desse universo de personagens perdidos.

 

 

***

 

 

Livro: Felicidade

Editora: Patuá

Avaliação: Ruim

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