A tarde da morta na calçada

Aos vinte anos, o personagem-narrador de Uma mulher transparente, de Edgard Telles Ribeiro, é um jovem repórter apaixonado por cinema que, por intermédio de um tio, vai trabalhar na produção de uma enciclopédia coordenada por Herculano Menezes de Castro, ensaísta, tradutor e editor de renome nacional.

Apesar do prestígio, o convívio lhe mostra um sexagenário discreto e tímido, que ficou viúvo depois que sua esposa foi vítima de um acidente – “sobre o qual não se fala”.

Certa tarde, enquanto o chefe checa um dos verbetes pelos quais o narrador é responsável, este nota um revólver oculto sob seu paletó.

Horas depois, ouvem-se dois tiros vindo da rua, em frente ao prédio.

Olhando pela janela, os galhos das árvores permitem apenas a visão de um corpo caído, com sapatos femininos. Desse modo, na companhia do colega de trabalho Guilherme, um professor universitário, o jovem repórter rompe escada abaixo e se depara com uma mulher morta na calçada, sem qualquer vestígio do assassino.

Transeuntes logo se aglomeram ao redor do corpo, no que Herculano aparece. Dá sinais de um tipo de distanciamento.

Quando retornam ao escritório, o chefe age e fala de maneira estranha, soltando frases desconexas e suspeitas, à medida que se serve de um copo de uísque.

Passava-se o ano de 1962, e o Brasil estava na iminência de um regime militar que, nas duas décadas seguintes, iria promover prisões arbitrárias, torturas, desaparições, queima de arquivos e a censura sistemática dos meios de comunicação.

Trabalhando no jornal Correio da Manhã, o repórter vive ativamente esse período de chumbo, no entanto a imagem da mulher baleada na calçada – e todo cenário construído dos ecos daquele assassinato sem culpado – é o que lhe assombra ao longo dos anos.

A história, então, salta para 1982. Agora escritor, com um romance de estreia premiado, o narrador se vê tentado a usar o acontecimento como matéria para seu próximo livro.

Nesse mesmo tempo, recebe a notícia do falecimento de Herculano. Durante o velório, reencontra Guilherme e uma série de diálogos irá transportá-los àquele dia vinte anos atrás, reconstituído através das certezas e teorias das últimas testemunhas vivas da cena.

Ribeiro se vale dos ingredientes das novelas policiais para dar tração ao seu romance, usando o mistério como fio condutor. A exemplo do gênero noir, o crime é o dispositivo que amplia as intenções do enredo para outros temas e conflitos que não se limitam à descoberta do assassino.

No curso da conversa com Guilherme, o narrador lança mão de artimanhas, emprestadas da trama de longa metragens, para extrair informações do antigo colega de trabalho, que irão revelar (possíveis) conexões entre a morta na calçada e o acidente nebuloso que vitimou Maria do Rosário, a esposa de Herculano.

Desse jogo de luzes pálidas e sombras indecifráveis, vem a proscênio Gilda, esposa de Guilherme. Enigmática, ela era amiga confidente de Maria do Rosário e, a partir de sua entrada na história, o livro ganha escala, capturando brilhantemente, através de uma experiência pessoal, o espírito de um Brasil marcado pela opressão e pela vilania.

Impressiona como Ribeiro impõe um domínio magnético à sua escrita, seduzindo o leitor com enganos e pequenas descobertas, que se consorciam num clima de suspense ao longo de um labirinto de conjecturas. Nem tudo está conectado, mas um fato, em maior ou menor grau, reverbera no outro, gerando uma frequência de segredos.

Não é toda mentira que corrompe uma verdade; há também aquelas que estão ali para protegê-las.

Sob essa primeira superfície, porém – na qual se desenrola a trama de motivação policialesca -, o autor articula um exercício sugestivo de metalinguagem. Partindo do desejo de seu personagem em usar o crime como ponto de partida para seu próximo romance, Ribeiro conduz a narrativa como se, à medida que os acontecimentos se sucedem, o leitor estivesse de fato testemunhando aquele livro sendo escrito.

Com isso, subtextos adquirem relevância, sendo o mais expressivo o paralelo entre resistência e violência contra a mulher.

Uma mulher transparente, afinal, triunfa tanto em seu enredo de mistério quanto no que traz implícito em sua engenhosa construção. Independente de quão fundo o leitor deseja explorar, a força de imersão só dará trégua ao virar a última página.

 

 

***

 

 

Livro: Uma mulher transparente

Editora: Todavia

Avaliação: Excelente

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