A poética das zonas invisíveis

A estrutura do olho impõe naturalmente à visão um ponto cego. Também chamada, na literatura médica, de escotoma, essa pequena área da retina não concentra receptores de luz, formando uma mancha obscura.

Não a percebemos pois, durante o processamento imagético, o cérebro preenche esse campo com imagens ao redor e com informações registradas pelo outro olho. Desse modo, a acuidade visual é protegida de qualquer presença de sombras ou penumbras.

O exercício da distração, de Kátia Borges, sustenta sua poesia nas redondezas de um ponto cego. Seus versos têm origem no espaço que não se nota, chamando atenção para os momentos corriqueiros que passam despercebidos na construção fractal do dia, na construção da relação com o outro.

É um campo poético de claro-escuro, preenchido com uma luminosidade mansa que extrai beleza do sutil, do movimento mínimo que se faz com o soslaio da vista, processando e dando forma a um catálogo de imagens caracterizadas pela delicadeza.

Vide a primeira estrofe do poema “Pequena flor”:

Meu apartamento, no 12º andar,/fica tão perto da varanda/do vizinho do outro prédio/que, se esticar o braço com jeito,/conseguirei regar suas plantas.

Esse pequeno trecho é bem representativo para todo livro. É possível verificar o cuidado da autora com a metrificação, com a ordenação de palavras que busca no coloquial o extraordinário das revelações e manifestações cotidianas.

A escolha faz com que os versos ganhem a desenvoltura do texto em prosa, articulando, em seu processo de composição, som e sentido, sensação e observação. Tal característica torna, assim, o eu-lírico um agente que experimenta o que vive ao mesmo tempo que registra essa vivência.

Não saber me aconselha//finjo que faço de manhã/o exercício da distração//estou a salvo/dentro do movimento//(…) Não saber me aconselha/estou correndo lento e suave/dentro das manhãs//há uma sequência irregular de dias/agônicos no calendário//e aos poucos me acostumo/com esta flor no peito (de “O exercício da distração”).

Estruturalmente, a coletânea é dividida em três atos (ou níveis de perturbação): “Como se fosse o órgão vivo”, “Fugas extraordinárias” e “As pequenas vilanias da cidade”. Em termos de profundidade subjetiva, este último é o que bebe menos da abstração, ao se relacionar com o espaço físico, o corte geográfico da morada.

A primeira parte é a mais bem construída, usando como matéria sentimentos fortes, a exemplo da saudade, numa forma de se inserir e dialogar com a existência real, captando e percebendo o poético à medida que eleva essa experiência comum a um plano em que deixa de ser vida e se torna alumbramento.

Ainda não sei com esta pedra virou/flor, e se plantou tão vigorosamente/em solo árido. Nem como esta flor virou/pássaro; e tudo que não sei e me pôs pasmo virou/regato manso em meio a dor./Mas é que enlouquecer pode ser frágil pode ser/fácil. É como ver na pedra a flor é como ver/na flor o pássaro (de “Enquanto você este ausente”).

Kátia ainda se vale de um efeito formal interessante, acrescendo rasuras em certas palavras dos títulos, de modo a emular o próprio fazer literário, aquele que brota da atividade inquietante de escrever e apagar.

O exercício da distração, portanto, assume-se um livro em curso. Uma reunião de luminosos poemas que nascem daquilo que a autora quer que se veja, estimulando o leitor a interpretar o que está à sua volta com a reserva de poesia que cada carrega em si, ainda que alguns a mantenha num ponto cego.

 

 

***

 

 

Livro: O exercício da distração

Editora: Penalux

Avaliação: Muito bom

Um comentário sobre “A poética das zonas invisíveis

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s