Fantasmas que não atravessam paredes

A chave de transcendência dos contos de André Balaio está no elemento sobrenatural que toma de assalto a realidade, transformando radicalmente o entendimento das coisas.

Temos, assim, um elenco de homens e mulheres comuns que terão de lidar com tipos diversos de assombramentos, cujas aparições servem para desencadear um confronto com o passado ou desmantelar a rota para o futuro, em ambientes ora rurais ora urbanos.

O título é muito bem apropriado, por sinal. Quebranto, de acordo com verbete do Houaiss, é “uma influência maléfica de feitiço, por encantamento à distância”. Por derivação de sentido, é também “um estado de cansaço, torpor, languidez; quebrantamento”.

No conto que dá nome ao livro, inclusive, um personagem agoniado define a expressão como o desejo de alguém pelo mal do outro, tomado de inveja pela riqueza alheia, a honradez e o respeito que esta pessoa detém entre os habitantes de sua cidade.

Ou seja, uma maldição, uma sina, um mau-olhado, um pacto que se faz com uma legião de fantasmas.

É o que se vê em “O lado de lá”, narrativa que abre o livro. Uma senhora, casada há tempo demais com um sujeito rude, começa a ser assediada pelo vizinho recém-viúvo. A chance do primeiro encontro, porém, é interrompida pela morte súbita do galanteador, cujo espírito passa a assombrá-la por conta de uma mentira.

Balaio dá uma repaginada na clássica história de alma penada. Saem a atmosfera pesada, as sombras de veludo e os casarões tétricos, e entram um mecanismo de desordem fomentado pela crise de sentimentos e a habilidade de conduzir o leitor, de forma paulatina, para além dos limites da situação prosaica.

“Não durma agora”, cuja força está na concisão, é sobre um pai movido pelo desejo de vingança, que recebe a visita do espírito do filho, informando-o a identidade de seu assassino. É interessante como o autor executa a trama pelo ponto de vista de outro personagem, sem que isso reduza a carga de emoção do homem atormentado.

Dois textos seguintes são os mais elaborados. “Noite cega” acompanha um universitário que, depois de acompanhar a amiga até a parada de ônibus, depara-se com “um mulher ruiva em pé, sozinha, de vestido longo fechado até o pescoço”. Ela o envolve numa encenação de Macbeth, embora ele nunca tenha atuado na (em) vida.

“Olhos azuis” oferece um nova interpretação para a lenda do lobisomem, dosando sobrenatural e ciência. Em ambos os textos, porém, a revelação derradeira chega ao leitor ainda na articulação da ideia central, esfriando a surpresa inerente ao gênero; o que se configuraria um ponto fraco, caso tudo evoluísse em escala de suspense.

Não é a intenção de Balaio. Ainda que recorra ao inusitado, o impacto de seus contos se encontra nesse palco dramático habitado pela normalidade que, mesmo depois ser chacoalhado pelo insólito, continua a mostrar que após a vida tem outra vida igual. Há fantasmas que não atravessam paredes.

 

 

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Livro: Quebranto

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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