Punidos pelos crimes de outros

A literatura de ficção científica feita no Brasil ganha força com a incursão de autores pela malha dos subgêneros.

Há alguns meses, o escritor paulista Luiz Bras lançou a novela Anacrônicos, com influência clara do cibernarquismo, que tratava de um futuro distópico no qual os mortos retornavam numa onda superpopulacional, na forma de replicantes sintéticos.

Agora é a vez do carioca Anderson Fonseca aventurar-se em A ARCA, romance de ação construído sobre os conceitos da cibercultura, da pós-modernidade e da teofania.

No centro da trama, está a ARCA, uma agência que caça assassinos reencarnados. Ali trabalha Calixto, um ex-policial que teve a irmã adolescente morta por um serial killer e se lançou numa busca cega, até capturar o maníaco e executar sua vingança. Por conta disso, foi expulso da corporação e condenado a dez anos de cadeia.

Um mês antes de ser solto, Calixto é procurado por dois homens de terno preto que lhe convida a fazer parte da agência. O trato é que, ao fim de 300 missões de morte, a ele será entregue a identidade da pessoa na qual o assassino de sua irmã encarnou novamente.

Na lógica do enredo, as lembranças de outras vidas ficam gravadas no DNA do reencarnado, acessadas por meio de tecnologias que rastreiam assinaturas energéticas. São evidências de que o indivíduo que recebe a alma de alguém que noutra vida cometeu crimes tem grande chance de se tornar um criminoso.

Calixto, assim, descobre que seu alvo é Agnes, uma jovem de 18 anos. Durante o cumprimento do plano, porém, uma fuga inesperada desbarata a investida, levando ao conhecimento de um hacker capaz de limpar as memórias passadas e livrar os reencarnados da condenação.

A prática de resistência terá ligação com outra agência constituída por ex-agentes da ARCA, cujo objetivo é destruí-la. Ainda que não saiba, Calixto será uma peça fundamental para a realização do programa, dando início a uma guerra de amplitude e de significações bíblicas.

Em parte, o romance tem influência da literatura do norte-americano Philip K. Dick, sobretudo dos contos “Minority Report”, “O pagamento” e “Agentes do destino”.

O autor trabalha em seu texto questões como autoritarismo, castigo e negação do livre-arbítrio, estabelecendo uma correlação com a realidade brasileira, através do divergente debate sobre a maioridade penal. Inclusive a epígrafe resgata uma fala do deputado federal Laerte Bessa (PR), na qual o parlamentar vaticina que “chegaremos a um estágio em que será possível determinar se a criança no útero tem tendências criminosas. Ao confirmar essa hipótese ainda na gestação, a mãe não será autorizada a dar à luz”.

Fonseca adota uma escrita frenética, polifônica, que fraciona e mescla o tempo e o espaço, na dinâmica de um plano narrativo no qual o presente é uma réplica do passado ao mesmo tempo que a projeção do futuro. Também lança mão de uma orquestra de onomatopeias, emulando a estética dos quadrinhos.

À medida que a trama avança, a compostura ciber-orgânica vai perdendo espaço para a elevação de manifestações de cunho teológico, relacionadas a anjos, aparições e outros fenômenos de composição etérea. Entra-se numa discussão sobre natureza da alma e forte de pecados que se transmitem feito um vírus, um legado.

Imagine uma região do tempo onde todos são julgados por suas vidas passadas. Não haveria um justo sequer. É como Abraão pedindo a Deus que busque um digno de perdão nas cidades de Sodoma e Gomorra, apenas para salvar seu sobrinho Ló e as cidades. E Deus lhe responde que não há, aos olhos d’Ele, não há um justo sobre a terra. A ARCA é como Deus, haverá um momento em que ela olhará para o mundo e não verá um que mereça o perdão.

Combinando ação com filosofia, A ARCA faz parte do ramo da ficção científica que usa do universo fantasioso para pôr em pauta questões que afligem a humanidade. Neste caso, a preponderância tanto da fé quanto da ciência como instrumentos de punição.

 

 

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Livro: A ARCA

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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