Uma homenagem às novelas negras

Noite adentro, de Tailor Diniz, ocorre em algumas horas, da escuridão plena rumo ao amanhecer.

O protagonista do novo romance do autor gaúcho é Antônio Messias, que cruza, de táxi, a fronteira entre Brasil e Uruguai em busca de asilo.

Está fugindo de algo de que não se tem explicação. Estaciona em frente a uma construção decrépita, onde mora Inácio Aramendía, colega de faculdade de Jornalismo, nos tempos de ditadura militar brasileira, contra a qual resistiram integrando a luta armada.

Ali é uma terra sem lei, adverte o taxista. Esta área é barra pesada. Se facilitar, o bicho pega. E pega feio. Território de Torté Navaja, complementa.

Aramendía acolhe o amigo e, aquecidos pelo fogo e taças vinho, iniciam uma conversa na qual desponta o nome de Valentina Torquato, uma amiga em comum da época de militância. O anfitrião informa que viveram juntos por dez anos, depois Valentina desapareceu.

Você se lembra de Valentina, claro?, presume Aramendía. Antônio desconversa, vacila, demonstrando que há uma história abafada em mistério.

Em seguida, Aramendía anuncia que precisa ir a um aniversário. Faz questão de que o recém-chegado o acompanhe.

Atravessam um rio e chegam à casa justamente de Torté Navaja, chefe do crime local. Este é casado com uma mulher enigmática, chamada Clemenza Ruíz.

De repente, um telefonema interrompe a cerimônia. Torté informa a Aramendía que um dos integrantes de seu grupo, o Brasileiro, foi encontrado morto, no que aparenta ter sido suicídio. Ele precisa sair para averiguar, e se despede de seus dois convidados.

Aramendía e Antônio retornam ao barco, porém, no meio do caminho, o uruguaio avisa que precisam voltar à casa de Torté. E assim se inicia uma jornada tensa pela noite que nunca termina, na companhia de homens bêbados e perigosos governados por suspeitas e traições, secretos soturnos e mulheres vampiras.

Diniz estrutura seu enredo através de influências diretas das denominadas novelas negras. Há ingredientes dos romances policiais, contudo a resolução do mistério não é o propósito principal, e sim a construção da atmosfera pesada, ameaçadora, que não permite antever qualquer passo futuro ou atitude.

Não por menos, a escuridão é a massa nuclear, usada tanto para dar acabamento aos cenários internos e externos quanto para modelar, de maneira transpositiva, as relações entre os personagens e aquilo que um esconde do outro. A noite está no presente corrente e na vigência de um passado cuja chave de acesso o próprio Antônio parece deter.

E isso é interessante. Embora a narração esteja em terceira pessoa, o ponto de vista é sempre do protagonista, conduzindo a trama a partir de suas observações e espantos.

Com isso, o autor aposta num trabalho mais apurado de linguagem, sobretudo na composição imagética, buscando referências ao mesmo tempo que estabelecendo uma homenagem à literatura rioplatense, em especial ao uruguaio Henry Trujillo, autor do fabuloso Torquator.

Noite adentro se configura, desse modo, um livro legitimamente fronteiriço, que caminha por territórios áridos no golpe de uma brisa que recende um frescor de brasilidade.

 

 

***

 

 

Livro: Noite adentro

Editora: Grua

Avaliação: Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s