Contos que retratam a Amazônia

As primeiras incursões de João Meirelles Filho pela literatura foram via não ficção, com os livros Grandes expedições à Amazônia brasileira e O livro de ouro da Amazônia. Ao escrever os contos que integram O abridor de letras, o autor paulista buscou referências neste mesmo ecossistema situado no Norte do Brasil.

As oitos narrativas se concentram em capturar todas as cores, os costumes, os tipos peculiares e os eixos que modulam parte dessa geografia continental, ao mesmo tempo que explorar um sentido supranatural, por meio das crendices, dos mitos, do folclore e da fonte inesgotável de símbolos que há no homem arraigado à terra.

Meirelles, que reside há duas décadas no Pará atuando como ativista ambiental, transforma a assimilação do vivido numa prosa sobrecarregada de um realismo naturalista que, por ser tão particular, tão plástico em seus aspectos regionais, alcança uma conotação extraordinária, uma atmosfera mágica.

É um exercício que advém do olhar, mas que precisa da oralidade, de uma flexão específica para encontrar sua adequada chave de transmissão.

E o autor a descobre ao reproduzir as vozes dos ribeirinhos, dos barqueiros, dos peões, dos agricultores, dos vasqueiros, dos garimpeiros. Pratica, da mesma forma, o garimpo de uma linguagem arcaica, avultada de dialetismos, que, embora caudalosa, toma o curso de uma leitura leve, por conta de frases bem ordenadas e instintivamente sonoras.

“Poraquê”, conto que abre o livro, é exuberante. De uma fazenda situada na Ilha de Marajó, o narrador divisa uma formação que surge no meio do mar, sem conseguir afirmar se é rocha ou é parte da cabeça de um monstro. Essa potência de mistério se condensa numa complexidade de sentidos e de imagens, erguendo um amplo painel vivo que acaba tomado por um fenômeno rico em significações de caráter religioso, de nuances fantásticas.

Mais à frente, “Mamí tinha razão” retoma o mesmo tema, ressaltando a força alegórica do elemento água no funcionamento do imaginário coletivo, na maneira com que os habitantes locais cultivam lendas a partir desse mundo submerso. “O Navio” é ainda mais específico, fazendo de um passeio noturno de barco numa história de assombros.

Meirelles provoca combinações entre seus contos, de modo a instaurar um universo consistente, facilmente identificável, que nunca se afasta de seus aspectos mais comuns, mesmo quando visita o plano espiritual. “Espírito-de-velas” e “O abridor de letras” tratam dos enigmas dos sonhos, das superstições, de personagens que, diante de circunstâncias que estão além das soluções mundanas, recorrem a benzedeiras, banhos de ervas e rezas para santos.

“Diário de visita à rendeira do Rio Vermelho” conclui o livro num tom denunciatório. A partir da escritura de um diário, a protagonista dá curso a uma investigação que parte dos costumes dos moradores de um povoado e termina por revelar as transfigurações geográficas causadas por uma mineradora, numa referência intencional às tragédias ambientais, a exemplo da que ocorreu na cidade mineira de Mariana, após o rompimento de duas barragens da mineradora Samarco.

De fato, nas entrelinhas da leitura, sinais de alerta pontuam todos os contos. Há uma verve ecológica na ficção de Meirelles, descrevendo com paixão e conhecimento os animais, as florestas, os rios e os mares a fim de carimbar a importância da preservação deste espaço, de reforçar que literatura é também conscientização.

O abridor de letras venceu o Prêmio Sesc Literatura 2017, indicando o fortalecimento de uma nova geração de autores que valorizam a linguagem e os temas regionais.

 

 

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Livro: O abridor de letras

Editora: Record

Avaliação: Bom

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