A primeira década do Rei do Rock

As crônicas de Elvis – Volume 1, Cadillac cor-de-rosa é uma espécie de biografia romanceada, cuja pretensão é cobrir toda uma década da vida de Elvis Presley. Primeira parte de uma trilogia, o livro de Daniel Frazão se debruça sobre os anos 50, período marcado pelo surgimento e pela ascensão meteórica do cantor nascido no sul dos Estados Unidos.

De rapazote caipira que, aos 18 anos, entra na Sun Records e paga pela gravação de um vinil sonhando ser famoso, os capítulos avançam pela aposta de um produtor descrente que, sem se dar conta, trisca uma fagulha sobre pólvora ao levar o vinil de “um branco que canta feito um pessoa de cor” para a programação de uma rádio local.

Logo na primeira reprodução de “That’s all right”, os ramais telefônicos enlouquecem e a carreira musical de Elvis estoura. A partir daí, a trama se concentra nas participações em programas de rádio e de tevê, ao mesmo tempo que focaliza o relacionamento com os pais, seu estafe e as garotas.

A histeria das fãs durante as aparições ao vivo e o jogo de interesses envolvendo produtores e empresários coexistem a momentos de natureza particular, em especial ao lado da mãe, com quem tem uma forte ligação. Com os cachês iniciais, compra uma casa boa para os pais e o famigerado Cadillac cor-de-rosa.

Elvis é uma heresia e também uma força da natureza. Passeia por um repertório de canções até então relacionadas aos cantores negros, manobra os quadris de uma maneira meio libidinosa, meio acrobática, que logo lhe rende o apelido de Elvis, The Pelvis antes de o Rei do Rock.

O sucesso estrondoso de ídolo pop (foi o primeiro e maior popstar de todos os tempos) o levou à Hollywood, onde conviveu com astros do cinema e lidou com as benesses e os perigos da fama. As crônicas terminam com o retorno de Elvis da Alemanha, depois de servir ao Exército, e alcançar uma glória sobre-humana.

Mas o que diferencia o livro de Frazão das biografias lançadas no Brasil ou mesmo do verbete que figura na Wikipédia?

Pode-se dizer que o autor expande o universo para dentro. Estão lá todos os acontecimentos marcantes, que se desenrolam no lastro das transformações socioculturais de sua época, no entanto servem de escopo, de espaço de pertencimento para o texto explorar as minúcias, o homem que se guardava em meio as camadas lustrosas do mito.

Frazão se utiliza da matéria ficcional para recriar situações íntimas, explorar a psicologia e os dramas pessoais de Elvis, imaginar diálogos.

Funciona como um tipo de roman à clef, expressão francesa para designar a forma narrativa na qual o autor trata de pessoas reais por meio de personagens inventados. Tudo o que é contato realmente ocorreu, porém essa revivência recebe pequenas adições, convertendo o autêntico ator da história num agente manejado pela ficção.

Desse modo, a leitura se torna mais saborosa, ganha originalidade e flui de maneira leve, sem o contrapeso da pesquisa. Obviamente que, para um fã do Rei do Rock, há um gosto diferenciado, contudo As crônicas de Elvis, assimilada como um romance, tende a agradar todo o tipo de leitor.

 

 

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Livro: As crônicas de Elvis – Volume 1, Cadillac cor-de-rosa

Editora: Tinta Negra

Avaliação: Bom

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