Romance panorâmico que não dá barato

Em “Os cactos da geração Y”, crônica que abre a antologia Uma estranha na cidade, Carol Bensimon reflete sobre as transgressões contemporâneas.

Tendo como fonte um artigo britânico sobre a chamada “geração bocejo”, a autora gaúcha constata que, ao contrário do lema sexo, drogas e rock’n roll, que marcou parte da juventude de outrora, os novos sinais de rebeldia nada têm a ver com “o desafio da autoridade e o ataque à moral e aos bons costumes”.

As transgressões agora são limpas. Ser reacionário está relacionado a assar bolos, fazer tricô ou praticar jardinagem.

Arthur, nesse contexto, poderia ser considerado um transgressor contemporâneo. De fato, o protagonista de O clube dos jardineiros de fumaça, romance recente de Bensimon, deve ser considerado um transgressor de qualquer maneira.

Arthur planta maconha. A princípio, o cultivo tinha fins medicinais, direcionado à supressão das dores da mãe que sofria de câncer terminal no útero. A morte, porém, não o levou a se livrar das mudas de cannabis, germinadas das sementes que um amigo fora do Brasil mandava entocadas em livros.

Quando seu jardim é descoberto, o conhecimento público se torna um escândalo midiático. Arthur é professor de história, num colégio particular de Porto Alegre. Desmoralizado e abalado pela perda da mãe, tenta recomeçar a vida nos Estados Unidos, no condado de Mendocino, no norte da Califórnia.

Ali é um dos nacos do chamado Triângulo da Esmeralda (o nome vem da imensidão verde captada pela visão aérea do local), a região estadunidense que concentra a maior produção de maconha. Ainda que legalizada para uso recreativo desde novembro de 2016, a erva movimenta um comércio ilegal de bilhões de dólares por ano, afiliado ao qual está um histórico interminável de apreensões e de registros de violência.

Arthur se insere, pouco a pouco, na dinâmica desse território, conduzida pelo ciclo do plantio. Hospeda-se na casa de Sylvia, uma cinquentona solitária, que carrega as marcas de um longo casamento abusivo. Firmam amizade, da mesma forma que ele tenta se aproximar de Dusk, um velho hippie que viveu a contracultura dos anos 1960, fundando sua própria comunidade e agora convivendo com o ressaibo daqueles que ruminam o fracasso de suas ideologias.

Dusk também falhou como pai de Tamara, uma garçonete emocionalmente frágil, envolvida (a contragosto) numa relação poligâmica. Sua perspectiva muda, ao iniciar um namoro com Arthur, que, por sua vez, prescruta caminhos para embarcar no plantio e no comércio da maconha.

Bensimon combina realidade e ficção para ambientar seu romance. A narrativa se atém a acompanhar a experiência de vida de Arthur (em idas e vindas temporais, Porto Alegre-Mendocino) e a construir um panorama local, contextualizando as transformações políticas, sociais e culturais que marcam a luta pela descriminalização da maconha.

Para isso, a história corrente é, de ora em vez, fatiada por capítulos que reinventam perfis reais, a exemplo do comissário do serviço de narcóticos norte-americano Harry Anslinger, ou os convertem em pura ficção, tal qual no trecho focado no sumiço da carioca Marina Nunes, a fim de ilustrar o perigo do mercado da droga.

O caso é que a autora não consegue dar densidade a esse universo recriado, de modo a fazer com que seus personagens transitem organicamente por ele. Tudo é muito unidimensional; a começar pelos personagens. Parecem autômatos, com motivações claras (e interessantes), contudo sem conseguir desenvolvê-las, sem alcançar um nível de extensão psicológica que vá além do que se desenhou em suas apresentações.

Falta um eixo, amarrações consistentes que prenda o leitor na história e prenda a própria história, que vai patinando, encadeando cenas que não levam a lugar algum, exceto ao exercício de se construir uma cena bacana, com diálogos bacanas. E aí que está o grande problema do livro: Bensimon trabalha a linguagem para extrair uma escrita descolada, que se mostra mais preocupada em idolatrar a si que a servir de meio para a articulação do enredo, para a sedimentação de uma estrutura básica.

Em entrevista a Fernando Sorrentino, publicada no livro Sete conversas com Adolfo Bioy Casares, o escritor argentino, então septuagenário, declarou sua antipatia pelos autores que dão mais importância às palavras que ao propósito de se contar uma história. Assim diz:

Jamais gostei das palavras por si só, e vejo que atualmente há romancistas que têm prazer em acumular palavras, e o leitor não consegue saber de que diabos eles estão falando.

Não é o caso de ser tão drástico quanto ao livro de Bensimon. A autora sabe o que fala: as propostas e as ambições do enredo são evidentes e empolgantes, todavia não conseguem se sustentar na transição da matéria da realidade em matéria ficcional.

Poderia ter sido um bom livro de crônicas. Como romance, é inconsistente e desgovernado; com implicações temáticas que perdem força à medida que se afastam do conteúdo de pesquisa, tornando a leitura um mero assistir de personagens que se apequenam nesse recorte de tempo, até evaporarem feito fumaça.

 

 

***

 

 

Livro: O clube dos jardineiros de fumaça

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Ruim

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