A culpa que remove montanhas

Matheus Arcaro se utiliza da culpa como instrumento de condução dos personagens de Amortalha.

Em sua segunda coletânea de contos, o escritor paulista, graduado em filosofia, explora o conjunto de condições que forma a consciência penosa, por meio de tramas que se desenvolvem a partir de fraturas afetivas, atitudes imorais ou transgressões de caráter religioso.

A todo momento, fica em voga a dualidade entre certo e errado, bem e mal, rancor e perdão, racionalidade e fé. Isso ocorre devido ao cerne narrativo concentrar uma questão, cujo grau de envolvimento pode não estar em quem tem a resposta, mas mesmo assim o assombro da solução é incontornável.

É algo como dito por Sócrates a Freud, no espirituoso conto “Foucault ficcionista”, sobre um manuscrito deixado pelo filósofo francês no qual imagina uma tarde no divã entre o filósofo ateniense e o pai da psicanálise. Você inventou o maior instrumento de dominação da história da humanidade: o pecado.

Os personagens de Arcaro precisam lidar com essas falhas que, por vezes, estão inacessíveis no passado ou aparecem na forma de um ato reprovável executado para realinhar o caminho para o futuro. Em alguns casos, a exemplo do conto “Salvação”, o desvio do erro depende da aceitação arbitrária da vontade divina.

A narrativa que abre o livro focaliza uma menina que é levada a consentir uma perda terrível, sob o argumento de ser o desejo de Deus. Já em “Má educação”, o julgamento se faz pela lei dos homens, de quem pune justamente aquele que se prontificou a ensinar, mesmo sabendo que a culpa estará na contundência do golpe.

O autor injeta, em certos textos, uma verve crítica, de matriz social, porém estes não são os melhores. A coletânea cresce com as breves ficções de apelo mais intimista, aquelas em que o palco dramático se configura nos limites de uma relação interpessoal ou no movimento de olhar para dentro de si.

“Alemão”, que sugere um quê de autobiográfico, trata de um homem assaltado pelo remorso de se sentir envergonhado pela profissão do pai, quando menino. É belíssimo e traz um começo inspirado: Hoje faz um mês que completei trinta e três anos. Abraçado ao Marcelo e à minha mãe, vejo ali a figura do meu pai que me arremessa à infância.

“A flor” é sobre o dilema de interceder contra o tempo da morte. “Metade de mim”, que vem em seguida, é narrado por uma mãe que, condenada por uma doença, implora ao filho que nunca se despeça de seus sonhos. Quero que andes conforme nosso plano, que deixo escrito nos versos das folhas do teu álbum em branco.

A prosa de Arcaro encontra um lirismo involuntário, ao entrecruzar a narrativa corrente com fluxos de natureza subjetiva, aproximando os atores da história da significação de seus conflitos. Em função da brevidade, a carga emocional aplicada consegue construir um arco satisfatório ou, no caso dos minicontos, transferir sua força para subentendimentos.

O autor, contudo, ainda comete pecadilhos, permitindo associações canhestras e patinando na pieguice, a exemplo de “queria estancar o chorume das ideias” ou de “a catarata da juventude pôs-se a cair”. Porém nada que cause grande interferência.

Com os contos situados do meio para o fim – com destaque para o excelente “Fé” -, Arcaro faz, de Amortalha, seu melhor trabalho até então.

 

 

***

 

 

Livro: Amortalha

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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