Histórias submersas na Guanabara

Os contos de Nas águas desta baía há muito tempo, do escritor e compositor Nei Lopes, são ambientados no Rio de Janeiro da virada do século 19 para o século 20.

Um cenário às margens da Baía de Guanabara de praias “com areias muito brancas e água cristalina; tão limpa que dá para ver no fundo o espetáculo dos camarões, cavalos-marinhos, sardinhas, passeando aos cardumes, e até mesmo baleias”, e de um centro urbano caracterizado pela zona portuária, onde circula toda uma sorte de mercadores, marujos, políticos, escravos, malandros, sacerdotes, prostitutas, “policiais, sanitaristas e engenheiros”.

Em maior ou menor grau, todas as narrativas têm seus eixos mobilizados por duas grandes rebeliões. A Revolta da Armada de 1893, quando os militares da Marinha bombardearam as fortalezas do Exército, em represália ao governo do presidente Floriano Peixoto. E a Revolta da Chibata, um motim ocorrido em 1910, cujo o estopim foram os castigos físicos impostos pelos oficiais da Marinha brancos aos marujos negros e mestiços.

Com uma desenvoltura impressionante, Nei Lopes decanta esse caudaloso caldo histórico num filtro ficcional, extraindo uma substância híbrida e misteriosa que, embora oriunda da realidade, apresenta uma textura mágica, da fonte literária de autores como Gabriel García Marquez, Alejo Carpentier e Juan Rulfo.

O mesmo se apreende da linguagem, que resgata um vernáculo antigo e peculiar para dar molde ao timbre narrativo, sobretudo quando os atores da trama ganham voz ativa.

Prodígio do Espirito Santo, o artista circense que foi o “primeiro oficial de cor da Armada brasileira”; Maria-Angu, a temida cafetina que se tornou nome de praia; Valonguinho, o escravo grotesco e sem dono, que virou santo; Beto Sem Braço, “o feliz, folgado e deleitado escravo reprodutor” que se transmutou num facínora.

Os textos que têm como fio condutor a construção de personagens são os melhores. Outro ponto alto é a representação de um arranjo coletivo com aspectos ainda selvagens, no qual os negros estão saindo de um período escravocrata e se inserindo no contexto social antes dominado pelos brancos.

O autor repercute os ecos dessa herança na cultura fluminense, decifrando uma mitologia prosaica que se constitui de hábitos, ritos, crenças e embates. Com isso, a História se curva ao cotidiano, situando-se ao nível dos fatos que se reconta com a tinta da imaginação; como se a própria História não fosse uma seda de linhas inverídicas.

O olhar de Nei Lopes passa por ilhas, praias, ruas, vielas, igrejas, prostíbulos, calabouços e botequins, para alçar a altura em que se enxerga por completo os limites da “lagoa enorme de água salgada; Guará-pará, como chamavam os índios”. Uma homenagem centrada no poder da imaginação e no rigor da pesquisa à Baía de Guanabara que, embora abandonada e encardida nos dias de hoje, guarda no fundo de suas águas o registro fiel de um estado em construção.

 

 

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Livro: Nas águas desta baía há muito tempo

Editora: Record

Avaliação: Muito Bom

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