Contos com densidade romanesca

Ainda que distintos em temas e formatos, todos os contos de A oração do carrasco, do baiano Itamar Vieira Junior, acompanham personagens que estão em busca de algum tipo de liberdade. Seja no coração de uma tribo indígena ou no porão de um navio clandestino, o desejo de se apartar de uma condição dominadora é o meio de salvar a si ou a um outro ao qual se está enlaçado por conta de um sentimento, de um legado, de uma hereditariedade.

Quase não é possível. Ou, quando é, a conquista é o extrato de uma perda ou de uma tragédia.

O excelente “Alma”, que abre a antologia, é um caudaloso devanear de uma escrava recém-fugida, que caminha por uma estrada do sertão. À medida que apreende aspectos da paisagem estrangeira, a protagonista visita momentos do passado, que vão da infância ao cotidiano da fazenda em que estava presa, até revelar um final surpreendente.

Logo nesse primeiro conto, o autor já fixa as características que moldam sua escrita. Uma prosa volumosa e compassada, de frases longas, polidas, com preferência pela representação imagética e por um lirismo penetrante que se denota na forma de o narrador descrever e de assimilar o mundo.

“A floresta do adeus”, que versa sobre uma cerca de arame farpado que separa gerações de família, transfunde essa dinâmica de observação em vários personagens. Efeito semelhante se alcança em “Manto de apresentação”, porém interiorizando essa varredura para uma perspectiva ontológica, ao emular a voz sacramental de Arthur Bispo do Rosário.

Doutor em Estudos Étnicos e Africanos, Itamar se utiliza da língua jarawara para substanciar o enredo de “O espírito aboni das coisas”, que narra a jornada do índio Tokowisa, dividido entre o chamado da guerra e a proximidade do nascimento de seu filho.”Meu Mar (Fé)”, o melhor texto, é um relato belíssimo e sofrido de uma imigrante que foge da África para a Bahia, mas não consegue desatar seu espírito de um amor sem corpo presente.

Olha para cada homem que aparece no cais, cada pedaço de terra que existe aqui. Olho para cada rosto a buscar você, cada onda que chega aos meus pés. Tenho esperança de que você voltará, chegará a cada momento, que há salvação para nosso futuro que quase atravessou o oceano que nos zomba, o mar onde você se perdeu.

A estrutura das duas últimas narrativas – e, em especial, daquela que dá nome ao livro – demonstra a habilidade do autor em concentrar a densidade romanesca nos limites exíguos do conto. “A oração do carrasco” estabelece dois planos temporais, a fim de confrontar presente e passado para contextualizar a decisão do filho de um carrasco que vê o ofício hereditário ser assaltado pela descoberta da poesia. Paradoxalmente, o texto se escalona nos atos entrepostos e no impacto de imagens desenhadas em sombras.

Há um contraste nas linhas finais, quando o autor abre um rasgo no universo ficcional para alinhavar a trama com circunstâncias da realidade; o que soa como meros impulsos opinativos, porém nada que contamine a condução e a qualidade imaginativa. Com consistência e arroubo no uso de referências histórico-culturais, Itamar Viera Junior dá vida a contos que buscam o vigor da primeira à última frase, carregando o leitor para a imersão da sua escrita.

 

 

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Livro: A oração do carrasco

Editora: Mondrongo

Avaliação: Muito Bom

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