O tempo que aparta e reconecta

A despeito dos temas concretos que fundamentam Entre lembrar e esquecer, o tempo é o que gira o moinho da matéria do romance de Mauro Paz.

O tempo que avança e recua, o tempo estagnado, o tempo que dá uma chance para o recomeço e o tempo que é ceifado tragicamente.

Cesar, o personagem narrador, guarda a ilusão de estar protegido numa cápsula temporal, que o resguarda do passado e do presente. Natural de Porto Alegre, o jornalista se mudou para São Paulo em busca de um emprego melhor e também para escapar dos ecos de um relacionamento terminado de maneira atroz.

Mora (a contragosto) com a namorada, que suspeita estar com ele apenas para não se tornar uma solteirona sem filhos. Não a apresenta à sua família, pois ele mesmo se esconde desta. Principalmente de seu pai, um homem conformado e estreito, do qual sempre lutou para se diferenciar.

Mas eis que o tempo que reina sobre todos, e não aquele que domesticou, crava-lhe as garras sem aviso.

Preso num engarrafamento, na Marginal Paulista, Cesar recebe a notícia de que Cadu, seu único sobrinho, foi assassinado. A morte precoce e brusca vai lhe lançar num redemoinho de recordações, em estágios pregressos que chegam à sua própria infância, e de volta a Porto Alegre, onde terá de encarar os pais e o luto do irmão e da cunhada.

O autor, a princípio, parece se utilizar do fato contundente para dar vulto a um drama familiar, colocando seu protagonista na posição de espectador da sua própria história.

No entanto, Mauro Paz aciona um outra chave que, embora inusitada, funciona para dar fluência e indução ao seu texto.

Ao ficar a par do ocorrido, Cesar percebe que há incongruências relacionadas à causa da morte do sobrinho. Recorre então a contatos, da época em que trabalhava na editoria de polícia de um jornal local, para clarear pontos que o relatório policial (supostamente de forma proposital) preservou em sombras.

A investigação, porém, esbarra na resistência do seu irmão, que não vê funcionalidade já que não vai trazer seu filho de volta. Por outro lado, sua cunhada abraça a causa, levantando bravamente informações por conta própria, inclusive quando Cesar retorna para São Paulo.

O livro, desse modo, assume um ritmo detetivesco com o propósito de penetrar na fundura das relações entre os personagens, e no relacionamento do protagonista com seus demônios, desencadeando uma série de decisões e de descobertas que vão instaurar pactos, desenlaces, conciliações e um final inesperado.

Cadu tinha 17 anos, estudava e era bem conhecido na pista de skate local. Tinha ido a uma festa, com um amigo, a convite de duas meninas, com quem iriam se encontrar. A festa era na casa do filho de um deputado, estava lotada. Seu corpo foi encontrado, na manhã seguinte, numa rua próxima. Por que a polícia concluiu rapidamente morte acidental? Por que nenhum dos jovens foi chamado para depor? Como os seguranças afirmaram não o ver, se Cadu era o único negro na festa?

Se o tempo é o dínamo do moinho da matéria do romance, Mauro Paz faz da crítica social seu componente mais energizante. Não se trata do preconceito sofrido pelo negro que habita a camada mais pobres dos centros urbanos, e sim aquele que goza de um boa estrutura familiar, que integra a chamada classe média.

Refletido na vida do sobrinho e em seu futuro interrompido, o narrador desenterra momentos em que ele e o irmão sofreram preconceito, em que tiveram de lidar com o fato de serem os únicos negros na escola e na faculdade, convivendo, muitas vezes, com uma discriminação latente, que existe onde não aparenta estar.

Não importa quanto dinheiro você tenha. Não importa se seu pai é um engenheiro de vida remediada (…), um lixeiro ou um jogador de futebol milionário. Ao nascer negro, você cedo ou tarde será tocado pelo racismo. Até porque, para a maioria das pessoas, é inconcebível ser negro e bem-sucedido. Ou mais simples, é inconcebível ser negro e não morar em uma favela ou ter, no mínimo, um primo distante envolvido com assalto a banco ou tráfico de drogas.

Não é fácil estabelecer uma trama compósita de elementos tematicamente distintos, e aqui o autor acerta em cheio, ao promover tais conexões com força e equilíbrio. O tom crítico, apesar de incisivo, nunca descamba para o panfletário, calcando-se em informações que procedem de fatos históricos e atuais, diluídas no capricho da ficção.

Com uma escrita ao mesmo tempo densa e espontânea, o autor prova (de vez!) que não é necessário ser negro para escrever sobre a realidade do negro, ser mulher para escrever sobre a realidade da mulher, ser gay para escrever sobre a realidade do gay ou ser extraterrestre para escrever sobre a realidade do extraterrestre.

Aliás, num tempo em que a sociedade se mostra mais que alerta aos casos de intolerância e de preconceito, é preciso acabar com o estigma de um livro da qualidade de Entre lembrar e esquecer não ganhar visibilidade na grande imprensa por conta de ter sido publicado por uma editora pequena.

 

 

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Livro: Entre lembrar e esquecer

Editora: Patuá

Avaliação: Muito Bom

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