A vida de todo dia ao rés do chão

Ademiro Alves de Souza, o Sacolinha, tem um trabalho diligente de levar literatura para ambientes marginalizados, a exemplo de cadeias, penitenciárias federais, morros, favelas e associações de moradores. Nesses eventos, ministra palestras e oficinas literárias.

Brechó, Meia-Noite e Fantasia, seu mais recente livro de contos, tem origem no projeto “Comunidade do Conto”, uma escola de contistas criada pelo autor na cidade de Suzano, em São Paulo. Cada narrativa foi escrita em cima de um tema escolhido coletivamente.

Dois contos são, desse modo, autorreferenciais. Em “Diga-me uma coisa, pelo amor de Deus!” e “Por onde começar?”, o autor narra a dificuldade de desenvolver um texto, tendo como base os temas “espelho” e “futebol”. Enquanto o primeiro é sobremaneira abstrato, o segundo torna-se um problema devido a sua abrangência.

Se o desafio fosse escrever sobre o universo intergaláctico, com certeza o conto já estaria finalizado. Mas o que me deixa sem ação é poder falar sobre qualquer coisa e sobre tudo o que rodeia o futebol e ao mesmo tempo nada disso me dá ânimo, escreve num híbrido de crônica e conto.

Os outros nove textos estão inseridos estritamente no universo da ficção que espelha a realidade da periferia. Sacolinha, no entanto, não faz de seus personagens estereótipos do substrato social onde imperam a criminalidade e o tráfico de drogas. Sua matéria de criação advém do palco subjetivo da vida, do que delineia a humanidade.

É o caso de “Batata do Rolo”, sobre um catador que cultiva um apreço paternal sobre suas quinquilharias, e “Os meninos da minha rua”, no qual dois amigos adultos tentam reproduzir as brincadeiras de rua que os cativavam na infância. Mesmo quando a marginalidade conecta os atores da trama, como visto em “Brechó, Meia-Noite e Fantasia”, comutação de perfil entre três criminosos, o foco é a combustão de desejos e dilemas que determina suas oblíquas personalidades.

Sacolinha demonstra que conhece bem a periferia e a escala de signos e interesses que mobiliza esse microcosmo, mas os utilizam na composição de cenários cuja coerência o leitor percebe de imediato. Seu trunfo está em justamente elaborar histórias que não dependem de endereço para ter força, impactando pela verdade contida em suas vozes, a exemplo do excruciante “Valsa de 15 anos”, que intercala a narração de pai e filha. Enquanto a adolescente se mostra confusa pelo distanciamento do pai, anteriormente tão amável, o pai confidencia a atração que o atormenta desde que a menina começou a exibir atributos de mulher.

Faz tempo que um conto me impressionava assim.

 

 

***

 

 

Livro: Brechó, Meia-Noite e Fantasia

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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