Desafinando numa ópera paulista

É difícil lidar com um livro como Veloz solidão.

Se, em sua forma, é um desabalado fluxo mental que liquidifica memórias, referências pessoais e uma situação central que envolve um crime, seu argumento contém uma tentativa de assimilar a cidade de São Paulo na qualidade de um drama musical.

A melhor representação, na falta de uma mais impressiva, está no subtítulo: “História de um motoboy que sonhava ser o super-herói da Ópera Sampa”. O paralelo se dá com as tragédias gregas, nas quais um destemido se lança numa jornada para salvar uma amada ou para vencer um desafio hercúleo.

No caso do romance do jornalista Souza Spinola, um pouco do reverso de cada.

Cachorrão, ou Formigão, ou Sampa é um motoboy que realiza entregas de luxo pela cidade de São Paulo. Depois de conhecer a argentina Lola, acaba entrando num esquema em terras paraguaias, onde fica responsável pelo transporte de mercadorias. O que não sabe é que se trata de máquinas de clonagem de cartão de crédito. Portanto, quando preso, se vê obrigado a fazer um acordo com a polícia em troca de sua liberdade.

Esse é o fio condutor da trama. Mas, do ponto de partida ao de chegada, a narrativa percorre caminhos sinuosos, declives e ruas sem saída.

O livro começa com o narrador-protagonista estirado no asfalto, após um acidente de moto. Através de uma tessitura espasmódica e multissegmentada, o autor constrói um painel de delírios, críticas e observações ácidas que dialoga com a loucura de uma metrópole, a imprensa marrom, a sociedade de consumo e os vícios modernos.

Para dar um exemplo simbólico, ele relata o momento em que o fotógrafo de um jornal pede para o policial mudar a posição de sua cabeça, para que a marca do capacete ofereça um impacto maior na foto. Há toda uma discussão sociológica aí, que faria Edgar Morin ovular.

O autor, aliás, flerta com algumas reflexões sobre dilemas morais, mas falta combustível. Acerta mesmo no ritmo veloz, que emula a aceleração sobre duas rodas, e nos momentos em que resgata recortes da experiência infantil do motoboy ao lado do avô italiano, cooptando nomes e obras do cinema e da literatura.

A ideia de mapear a cidade de São Paulo (o livro é dividido em 25 atos) feito a evolução de uma ópera é também interessante. A personagens íntimos ao narrador são outorgados os títulos de barítono, soprano etc., enquanto o cenário se edifica num coral de vozes, canções e ruídos. O caso é que outros autores mais gabaritados já alcançaram efeito semelhante, e a cacofonia que ressoa do relato de Spinola repercute apenas em si.

Veloz solidão parece, de fato, ter um propósito pessoal. Vale a pena dar uma espiada, mas é algo que passa a 200 km/h e deixa uma nuvem de poeira que se desfaz rapidamente.

 

 

***

 

 

Livro: Veloz solidão

Editora: Record

Avaliação: Regular

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s