Ensaios marcados pelo primor

A conversão da sensibilidade do olhar em inteligência da escrita caracteriza os ensaios que integram a coletânea Carteiro imaterial, de Marco Lucchesi. Um conjunto de textos heterogêneos que impressiona pelo primor narrativo e, em especial, pela soma de conhecimentos projetada da condição de leitor.

Lucchessi, que é membro da Academia Brasileira de Letras, utiliza a sabedoria como dispositivo para transitar pela história, pelos conhecimentos científicos e pela arte, compondo reflexões de amplitude universal a relatos de aspectos subjetivos, nos quais se faz remetente de cartas para um destino impresciente de resposta.

É o caso da primeira leva de textos, que empresta o nome ao livro. A missiva que inaugura essa parte é direcionada ao escritor senegalês Cheik Hamidou Kane. Evocando o impacto do romance Aventura ambígua para sua geração, Lucchesi recorre às raízes africanas para tocar em conceitos como identidade e liberdade, atraindo leituras que vão de Gilberto Freyre à poetisa portuguesa Ana Mafalda. A poesia é a pátria pela qual somos habitados. Mais que uma geografia política, trata-se de uma geolírica, declara.

Também poeta, o autor carioca decanta, do lirismo, um componente aglutinador entre os pensamentos próprios e as referências multifárias. O uso refinado, de forma consciente, traz organicidade para os textos, encontrando extensões de sutilezas ao tratar de casos trágicos, a exemplo do sequestro do jesuíta italiano Paolo dall’Ogli pelo Estado Islâmico em 2013. (…) no corpo frágil e delicado, na pele e nos poros da comunidade de Deir Mar Musa , no seio do deserto, de portas abertas ao diálogo, à altura dos olhos, na poética da hospitalidade, pedra angular que reconhece, na alteridade, a digital da esperança.

O Oriente Médio, sobre o qual se debruça o autor em suas narrativas primeiras, dá passagem, no segundo grupo de textos, a olhares focados na literatura romena e sua aproximação com a nossa língua-mãe, o português da forma prosaica e, com mais verniz, da forma poética. Sou vassalo da língua portuguesa, assume o autor no breve “Tardes de Alba Iulia”. Pago tributo em peças de ouro ao erário da etimologia do meu latino suserano.

Os ensaios também mudam sutilmente de configuração, apresentando um tom mais de resenha; um funcionamento que, ao mesmo tempo, celebra e examina. De Bucareste, um encontro afetivo com o filósofo Emil Cioran, em seu centenário, é a cauda de um rio de significados e expressões que desemboca no Brasil, por meio da poesia de Ghérasim Luca e escritores que, aqui, banham-se em seus versos. A seção ainda guarda uma joia de ensaio no qual o autor engendra um paralelo entre a epidemia vampiresca que contaminou o mercado editorial nos últimos anos e o romancista romeno Marin Mincu, autor de O diário de Drácula.

Os assuntos que mobilizam os capítulos seguintes têm nome e sobrenome. Em “Rastreamento”, Lucchesi ativa seu ofício de crítico literário, compondo artigos acerca das obras máximas de autores como Guimarães Rosa, Dante Alighieri, Johann Wolfgang von Goethe e T. S. Eliot. “Mal traçadas linhas” e “Posta-restante” são portas abertas para excursões por livros e autores eternos, porém o farol não se limita a iluminar o território paginado, transformando a literatura em chave para encontros, diálogos, considerações e análises da sociedade e do tempo radical no qual, sem a lanterna da arte, viveríamos à meia-luz ou em plena escuridão.

Fala-se sobre teologia, ao contato com Leonardo Boff; sobre a cultura brasileira, pela polifonia de João Ubaldo Ribeiro; sobre a cartografia de Ferreira Gullar; sobre a musicalidade que tonaliza a exuberância regional de Ariano Suassuna; sobre a nossa ortografia, numa bem humorada missiva direcionada ao filólogo Evanildo Bechara, no qual é proposto o português dos ideogramas. Para ke servem assentos, hifens & sedilhas, tantos e tamanhos, senao para dividir os sidadaos, maltratalos e perseguilos?

Antecipando o fim, a coletânea se entrega a textos de matizes jornalísticas, focados em temas pontuais, a exemplo dos 200 anos da Biblioteca Nacional, dos 450 anos do Rio de Janeiro, e das transformações urbanas que tomaram a cidade nos últimos anos. Lucchesi conclui o livro com um relato pessoal, sensível, em que visita o passado para se descrever no presente e dar-se conta de que nunca será aquele que se desenhou no futuro. Quando era menino via o futuro pouco atrás de mim, com passos curtos e tímidos, como a tartaruga de Aquiles. Hoje sou eu que já não posso alcançá-lo. A tartaruga me ultrapassou e continuo a resistir contra o pensamento único, as guerras de religião e os males de Império. E se o futuro não termina, minha autobiografia segue necessariamente incompleta, resigna-se.

Sorte do leitor que a literatura não carece exclusivamente do tempo para estar bem acabada.

***

Livro: Carteiro imaterial

Editora: José Olympio

Avaliação: Muito Bom

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