Uma simbiose entre prosa e poesia

É muito comum um escritor, ao trocar de gênero, carregar elementos da sua linha de chegada anterior para seu novo ponto de partida. O paulista Artur Ribeiro Cruz estreou, em 2015, com a antologia poética Semanário do corpo. Agora lança Vagalumes sem noite, seleta de contos na qual a prosa vai se acomodando à poesia.

De cara, o autor supera um grande desafio: o uso do artifício lírico para disfarçar a incapacidade de dar compostura à narrativa.

Ribeiro Cruz lança mão do encaixe harmonioso entre as palavras na formulação de uma substância que irá sustentar a estrutura simbiótica. Um texto que é denso sem comprometer a fluidez, que apela por um subjetivismo construtivo ainda que a realidade não seja travestida pelo véu natural dos sonhos ou dos devaneios.

O território de estimação aqui é Sertãozinho, município do interior paulista, onde nasceu o autor. Ali se passam muitas das histórias, levantando a dúvida de que, ao excursionar pelas memórias desses personagens, Ribeiro Cruz talvez estaria colecionando retratos de sua própria memória.

Não é um livro autobiográfico; um pouco, quem sabe (todo livro não seria um pouco autobiográfico?). Mas a atenção deve se restringir aos caminhos da ficção.

No primeiro conto, o ótimo “A última ceia”, a personagem grávida, filha de uma prostituta, tenta se desviar desse mesmo destino, mas acaba por perpetuar um legado de fatalidade. A descrição do ambiente vai se incorporando (e, em alguns casos, se condicionando) aos altos e baixos emocionais dessa mulher sem rumo e maltratada, criando momentos superiores onde rutila a poesia, que muito lembra a plasticidade das breves narrativas que compõem o estupendo Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues.

A mesma costura se percebe em “Canção noturna”: um exercício sem pressa, meticuloso, de modular o ritmo da constituição dos personagens e de suas ações ao desvelar da paisagem, em suas nuances e ocasiões tomadas por sombras. Dá a impressão de um processo intuitivo – o que é bom -, mas o autor deixa rastros de seu manejo da linguagem.

Sobretudo quando a poesia se revela também versificada, através de um personagem que emprega o recurso para dar sentido a sua história, que acaba por congregar essa história visível apenas para o leitor. Um meio de sabotar a forma convencional que funciona, justamente por servir como chave de conexão.

No contos em que a voz condutora se assume ciente da trama (vide “Corcel afogueado, ou o périplo de Orosmindo), um regionalismo flexiona o discurso. Há um contraste sensível entre os textos, quando isso ocorre, porém o autor traz verdade para o estilo, introduzindo signos que dão conta da jornada pelo dia a dia, o corriqueiro que se eleva em algo pitoresco por entre a beleza das coisas que se empalidecem sob o rótulo da normalidade.

O chato é que nem todos os contos se mantêm num alto padrão. Há um trio, lá para o meio, de histórias irregulares, cometendo pecados pueris, tais as composições de imagens baseadas em metáforas pobres e frases de efeito um tanto bregas: “A vida é um cigarro aceso fumado por ninguém”.

O saldo, porém, é positivo, identificando Ribeiro Cruz como um autor capaz de combinar gêneros, sem que nenhuma das partes se enfraqueça.

***

Livro: Vagalumes sem noite

Editora: Penalux

Avaliação: Bom

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4 comentários sobre “Uma simbiose entre prosa e poesia

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