Um processo aberto de escritura

Corre o risco de ser, no mínimo, relapso, o crítico que inicia sua análise pelo miolo do livro. Há, nos antecedentes do corpo textual (imagem da capa, título, orelha, biografia do autor), informações que, vistas com critério, fornecerão pistas sobre o conceito que mobiliza o pendor narrativo.

É o caso de Consertos de oficina, antologia de contos de Claudia Gelb. Dando uma passada pela segunda orelha, é possível apurar que a autora tem Licenciatura em Letras, Mestrado e Doutorado em Teoria da Literatura, e fez Oficina de Criação Literária com o escritor Assis Brasil. Um fato que denuncia a escolha certeira do título e, mais ainda, contextualiza as narrativas como produtos de um processo aberto de escritura.

Usando um termo forte, a escritora assume sua imperfeição. É patente a desigualdade do manejo aplicado na carpintaria dos contos. Alguns são bem-acabados, polidos; enquanto outros expõem irregularidades, farpas soltas, asperezas. Uma inconstância proposital. Natural, melhor dizendo. Pois são trabalhos efetivamente de oficina; textos que revelam uma autora apurando seu ofício, trepidando na escolha do estilo e das ferramentas, amadurecendo à medida que a leitura avança.

A temática, contudo, segue inalterável. O amor, de muitos modos. O sublime, o lúdico, o que acaba, o que desperta de maneira fulminante, o que parece mas não é amor, o que conduz um relacionamento em modo automático, o romântico, o histórico, o morno, o fatal, aquele que se infiltra no dia a dia.

Gelb se debruça sobre o parapeito da vida a dois, trocando constantemente posições de comando. Ora a voz masculina conduz a história, provocando (re)ações e efeitos, ora a voz feminina toma a frente, internaliza-se e despeja seus demônios. Sem vítima ou algoz favorito. A desdita não escolhe lado.

Em “Cão que ladra não morde?”, por exemplo, um marido infeliz com o casamento passa numa casa espírita e, após uma palestra, toma uma decisão drástica para um novo ano. Por outro lado, “Deus, o diabo e eu no meio” traz o drama de um homem desarmado no campo de batalha entre a mãe e a esposa.

O matrimônio (e, por conseguinte, a família) é um objeto para estudo das relações humanas, devassado em seus aspectos mais infames. “Mega Sena acumulada” e “Pequena trapaça” se concentram em momentos nos quais esse núcleo está em vias de desmoronar, devido a um agente externo ou a imersão de um desejo reprimido, um rompante ou a descoberta de um segredo. Situações que envolvem traição, sexo proibido, suicídio e rancor enchem as páginas.

Gelb consegue algo raro: ser versátil, ainda que trabalhe com uma única matéria-prima. Isso se dá, invariavelmente, pelo uso calculado da reviravolta final. Na maioria das vezes, funciona. Sobretudo, quando ajusta a trama para que se perpetue na imaginação do leitor. Vide um dos melhores contos, “Desilusão”, que exalta os feitos do protagonista de O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, o obstinado navegador Edmond Dantès, para colocá-lo subitamente numa posição das mais ordinárias.

Experimentando, enfim, com a mobilidade da escrita, a autora entrega uma antologia de textos rápidos e heterogêneos, que alcança um saldo positivo ao deixar explícito que se trata de um projeto de aprendizado. Algo que, se fosse manuscrito, traria no papel as sombras das correções, os desgastes da borracha, as marcas do aprimoramento.

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Livro: Consertos de oficina

Editora: Moinhos

Avaliação: Bom

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