Queimando diante da inabilidade

Todo primeiro livro – salvo raras exceções – é o retrato de um autor em formação, a caminho de uma voz própria, tateando por esse algo incompleto que será o estilo, a temática preferida, os aspectos narrativos. Em Eu contra o sol, o paulista Alex Tomé deixa claro a ambição de seu romance de estreia: rebelar-se contra a linguagem. Está nos agradecimentos: “(…) a Don Delillo e a Raduan Nassar, que ensinaram a me rebelar contra todos, e ainda mais contra a linguagem”. Ocorre que, ao contrário dos escritores citados, falta a Tomé habilidade e, além disso, amplitude para ter ciência de que um todo fragmentado não deixa de ser uma sociedade entre as partes.

Caos não é rasura de sentido. Vide Um copo de cólera, por exemplo, cuja influência aqui é escancarada. Nesta novela publicada em fins dos anos setenta, Nassar dá voz a um sujeito que relata um encontro carnal, modulando o discurso à intensidade das emoções de seus atores e às turbulências que regiam o país num período de plena ditadura militar. Sob a arritmia textual, as variações de tons e o agudo narrativo, há uma unidade de pensamento que se mantém intacta; o cerne do enredo inabalável ao sorvedouro.

Isso requer cumplicidade com a linguagem, e não rebeldia. Tomé tem o plano da máquina, mas não como fazer girar as engrenagens.

Desse modo, o livro se apresenta um projeto desnorteado, como se o autor tivesse uma ideia e, apesar de escrever incansavelmente, nunca conseguisse defini-la a contento de ser decodificada para o papel. Uma confusão proposital, que não concentra um eixo preciso. E o que vem à tona são as fraquezas.

Muitos parágrafos apresentam metáforas, analogias e comparações ruins. “Sua alma, leve e cristalina feito água, estava se tornando escura e viscosa como petróleo”; “A frase habitava solitária a página do livro, como uma cigarra que canta apenas para si mesma”; “estremecia como um liquidificador ligado sem a tampa”. Em outros casos, há imagens cunhadas sem qualquer sentido: “era claro e simples como a linguagem da chuva”, e momentos que vão do pieguismo a total cafonice: “Não era como antes, nossos começos não se tocam mais”; “Percebeu que chorar só aumenta o volume da chuva e então parou”; “Em março passado quando caminhavam no entorno do lago (…) ele se ajoelhou e então fez o pedido. Foi tão rápido, não molhou as palavras”.

Fica evidente um autor que não consegue se expressar sem uma muleta, e infelizmente acaba escolhendo as muletas erradas. Tais decisões tornam os personagens decompostos, emendando frases de efeito para esboçar suas personalidades: “Como é que eu vou namorar um cara se eu não transar 183 vezes para saber?”. De outra maneira, há chances desperdiçadas de se atingir o impacto desejado, a exemplo da frase “Rico era do tipo que namoraria uma jovem de cadeira de rodas porque achava que seria importante para sua biografia”. Colocada na dinâmica de um diálogo, a informação traria para quem fala a gravidade de alguém que age assim.

Tudo se fragiliza, afinal. Os saltos temporais não se coordenam, ficam como trechos à deriva, da mesma forma que a capacidade do protagonista de costurar esses pedaços da trama. Benício, um sujeito traído pela namorada, que revive a relação conturbada com o pai e assombros do passado, que volta depois de um longo tempo na Europa e se depara com a sociedade brasileira das manifestações em praça pública, do Brasil gigante que parecia ter finalmente acordado não apenas por centavos.

Pela cartilha colérica de Nassar, então, o autor consorcia essas ebulições coletivas às desventuras emocionais de seu narrador, desmontando a estrutura formal com a pretensão de fazer da sua escrita uma amálgama de sentidos e expressões, a partir da combinação de gêneros e do uso da literatura para capturar o espírito dos dias vigentes.

Outra vez: o escopo da história é erguido, porém o conteúdo é bem inexato.

De fato, o que mais se nota é a falta da mão pesada de um editor no texto. Alguém para arrumar, refinar, apontar um norte e, sobretudo, aparar a verborragia. De tudo o que Tomé tomou emprestado de Nassar, o mais importante para seu livro ficou de fora: o poder de concisão. Seria fundamental.

***

Livro: Eu contra o sol

Editora: Confraria do Vento

Avaliação: Ruim

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