Sexo, drogas & música eletrônica

Em 2001, o Jornal Nacional exibiu uma série de reportagens que flagrava o comércio de drogas a céu aberto no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro. Em meio ao trânsito natural de adultos e crianças, traficantes ofertavam seus produtos a plenos pulmões, como se estivessem numa feira: Maconha de R$ 2! Pó de R$5!

As imagens, gravadas pelo repórter Tim Lopes, mostravam jovens de chinelos, bermuda e camiseta, num contraponto ao forte armamento que ostentavam. Meses depois, seriam os traficantes desse mesmo conjunto de favelas que capturariam e matariam Lopes, enquanto este produzia mais uma matéria investigativa no local. Um território, portanto, onde droga e violência são componentes indissociáveis para a afirmação do poder paralelo que governa uma população desamparada e miserável.

Há, no entanto, um outro universo no qual as substâncias ilícitas não estão condicionadas à marginalização. Muito pelo contrário. São festas VIPs em bairros nobres, boates de luxo nas quais jovens da alta sociedade ostentam roupas de grifes internacionais e acessórios que custam milhares de reais. Nessas noitadas, regadas a garrafas de champanhe e música eletrônica, um único comprimido alucinógeno pode custar R$ 150. Uma realidade bem distante do terror das favelas, mas, não se iludam, tão perigosa quanto.

É o que mostra Baladas proibidas – A história do Rei do Ecstasy, escrito a quatro mãos pelo ex-traficante Gabriel Godoy e pelo jornalista Bolívar Torres. O livro-reportagem reconstitui a ascensão social através do crime do próprio Gabriel, um jovem pobre do interior paulista que se tornou o maior traficante de drogas sintéticas do Brasil. O relato, em grande parte em primeira pessoa, revive os altos e baixos de uma vida, como diz o protagonista, “na corda bamba, 24 horas por dia”, da descoberta do novo mundo ao luxo, do poder à queda, dos amores à solidão, do tempo no cárcere à capacidade de construir um recomeço.

Dividida em duas partes, a narrativa principal tem início em 2007, quando Gabriel, aos 19 anos, deixa a cidade natal de Serra Negra, em São Paulo. Com apenas R$ 200 reais no bolso, toma um ônibus para a capital paulista, sem qualquer plano traçado. Pensa em dali seguir para o Rio de Janeiro, até que vê, ainda na rodoviária, uma placa sobre a cidade litorânea de Maresias. Lá começa a trabalhar nos restaurantes locais, onde consegue dinheiro para alugar um minúsculo chalé. O administrador, de nome Lucca, também atua como promoter numa casa noturna, e Gabriel firma com ele amizade. Certo dia, ao irem juntos numa balada, Gabriel presencia Lucca vendendo ecstasy. Apesar de fascinado com o ambiente, desperta nele o espírito empreendedor e pega droga com o amigo, faturando sobre o valor original.

Em questão de minutos, havia feito um lucro de de 280 reais (…) Sentia uma energia estranha crescer a cada transação: era como se aqueles pequenos comprimidos na minha mão me transformassem no cara mais poderoso da festa. As pessoas queriam felicidade, e só eu poderia entregar a elas, conta.

A excitação provocada pelo dinheiro rápido (Em duas noites, faturei o valor do meu salário mensal) faz com que abandone o emprego e embarque de vez no comércio das substâncias proibidas. Começa também a se entorpecer de forma desbragada, para aguentar o ritmo insone das raves; a rotina frenética de sexo, drogas e música eletrônica. Quando a temporada de verão em Maresias dá uma trégua, parte para Campos de Jordão, a “Europa brasileira”, agora por conta própria. Pega mil balas (como é chamado o ecstasy) direto com um fornecedor, e faz de vez o seu nome. Badalação, LSD, lança-perfume, mulheres, passe livre para as festas tops. Em seis meses, tem um ganho de R$ 50 mil. Nesse período, conhece Mel e, depois, Luara, que serão fundamentais para sua trajetória. Maresias, porém, “tinha ficado pequena demais” para ele.

Vai morar em São Paulo, onde passa a viver num flat de luxo e frequentar restaurantes elegantes. As baladas, contudo, seguem lhe oferecendo oportunidade para expandir sua clientela. De distribuidor, agora conta com quatro traficantes comercializando sua droga. Chega aos números impressionantes de 1.500 comprimidos de ecstasy vendidos por semana. Mais a frente conhecerá um outro negociador com quem firmará parceria: Duda, um policial civil. O fornecedor de longa data desaparece, e é apresentado a outro policial, Tiozão, que reabastece o estoque. Agora que eu tinha mais um parceiro policial para me garantir na noite, achava que nada podia nos parar, lembra o protagonista. Mas aí começam os problemas. Seu bando sofre uma importante baixa, e a insegurança se instala. Até que, em agosto de 2009, ele mesmo é preso em casa.

O topo é o início da queda

No prólogo, Bolívar Torres explica que a história de Gabriel chegou as suas mãos na forma de um rascunho. Que o texto final é fruto de quase nove meses de conversas regulares, cujas datas e fatos foram trocados e romanceados, a fim de se resguardar identidades, mas sempre com o interesse em preservar a autenticidade da voz original e a essência da realidade. Isso fica evidente durante a leitura, por meio da escolha de frases curtas, do ritmo ágil e, acima de tudo, da construção narrativa a partir de um discurso direto, envolvente, que transporta para a trama uma carga meio suspense, meio de aventura, deixando, ao fim de cada capítulo, um gancho para o posterior.

O jornalista ainda explora muito bem recursos que potencializam a experiência do leitor, a exemplo das descrições detalhadas sobre as sensações provenientes do consumo de drogas (incluindo overdoses), as emoções que passam a definir e a transformar o protagonista e sua relação com as pessoas que o circundam, com o poder, com a lei. O mesmo ocorre, na mão contrária, ao tratar do tempo na prisão, minuciando o funcionamento da cadeia, das gírias ao método pelo qual as facções comandam o crime.

Tais circunstâncias ganham relevo na segunda parte, que se inicia com os dias no presídio de Guarulhos. Bolívar afirma que preparou essa parte como um choque de realidade. De certa forma, o que a condição de preso evidencia é um vício que não se estabelece pela droga, mas pela vida que a droga proporciona. Mesmo dentro da cadeia, Gabriel organiza um esquema para comercializar drogas sintéticas entre os detentos, galgando ali um status privilegiado. Quando é solto, sua primeira reação é soprar aos quatro ventos que “O Rei do Ecstasy tá na pista”. Torna-se mais impulsivo, audacioso; compra máquinas para fabricar seu próprio produto. Imagina-se o dono do mundo, quando, para usar uma expressão do livro, tudo não passava de uma “brisa”, aquela que perde o efeito para a verdade dos fatos acertar em cheio.

Baladas proibidas pode ser lido como uma história de formação, da maneira mais oblíqua possível, na qual a relação entre poder e corrupção dita as regras de um submundo que reinam sobre as normas sociais e particulares. A vida loka das festas sem fim, do dinheiro que paga iates, helicópteros, uma noite com a garota da capa da revista, mas que reserva a percepção tardia de que “o topo é só o início da queda”. Um relato empolgante que desvenda, do testemunho de um ex-traficante, o universo das raves e oferece uma visão definitiva de que o comércio de drogas não se restringe às favelas, aos bandidos de pés em chinelos que anunciam seus produtos cercados pela miséria.

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Livro: Baladas proibidas – A história do Rei do Ecstasy

Editora: Record

Avaliação: Muito Bom

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