A dupla face de uma mentira

Uma festa de arromba, numa cobertura no Leblon, Zona Sul do Rio, marca a despedida de Leonardo Pontevedra, que está de malas prontas para desembarcar em Paris. O motivo da viagem é um convite para lecionar na Universidade de Sorbonne. Escritor celebrado e colunista de um renomado jornal de cor marinho, Pontevedra goza de prestígio dentre os artistas de sua geração, além de namorar Beatriz Nikolopoulos, “uma das pianistas mais importantes do país e o melhor partido do Rio de Janeiro”. A temporada na capital francesa irá, portanto, coroar a carreira fulgurante de um obstinado homem das letras.

Ocorre que tudo não passa de uma grande farsa. O destino real do protagonista de Leonardo contra Paris, romance do carioca Márcio-André, será São João de Meriti, município desassistido da Baixada Fluminense, onde este se refugirá num sobrado bolorento que pertencia ao seu avô. Exilado no “cu do mundo”, ele gasta os dias palmilhando o local de sua infância idílica, que agora se tornou “um inferno superpopuloso com altos índices de violência e um calor insuportável agravado pelo excesso de concreto”, e alimentando seu perfil no Facebook com postagens sobre sua “estadia” em Paris, com o cruzamento de informações do Google Maps e da memória de visitas anteriores. Tudo em prol das curtidas, dos compartilhamentos. Mas por que foi terminar ali? Em suas palavras: Como eu, Leonardo Pontevedra, fui parar nesse buraco?

A resposta simples é que ele também sempre foi uma grande farsa. A fama e o dinheiro estavam atrelados ao relacionamento com Beatriz, a qual traiu com a empregada (ao menos, a que ela descobriu). O “status de namorado de” o elevou de um autor estreante, cujo livro teve boa aceitação da crítica, para a condição de celebridade, com bilhete dourado para “um universo inteiro de pessoas simpáticas, sorridentes e interessadas em ajudar”. Isso inclui jornalistas, críticos literários, editores; “todas as minhas amizades eram baseadas em falsidades e negócios escusos, comuns aos artistas”. Com o desquite de Bia, tiveram fim as mordomias, mas o prestígio poderia ser mantido via internet.

As notícias falsas dão conta de aventuras pela noite parisiense e observações polêmicas de natureza social, gerando atenção da população facebookeana e o fazendo cada vez mais popular. A técnica, segundo Pontevedra, era ter “os amigos certos – e dizer a eles dos seus feitos, fictícios ou não”. São estes, continua, que convencerão os outros de suas capacidades, e nunca ficará qualquer dúvida, pois todos estarão falando de você. A partir daí não terá como identificar a diferença entre verdadeiro e falso. Na verdade, esses conceitos sequer existem, porque, com obra real ou não, uma vez que seu nome se torna uma “marca”, ninguém questionará ou buscará alguma referência fora dele.

A confiança com que manipula a mentira, então, fará com que o protagonista, pouco a pouco, espelhe a invenção em sua nova realidade, e vice-versa. Na ausência do rio Sena, caminha às margens de um valão. Atenta-se ao falatório da vizinhança, começa a se enturmar. Conhece Simão, um desocupado profissional. As aulas na Sorbonne também são substituídas por uma oficina de escrita, que ministra na biblioteca municipal para um grupo de semialfabetizados. Entre eles, está Joyce, uma ex-atriz pornô de uma cena só que sonha ser poetisa, com quem se amasia. São atos variáveis do teatro que dirige, cujo roteiro faz parte de um teatro maior.

Márcio-André potencializa sua trama com discussões contemporâneas, e esse é o ponto alto do livro. O liame (mesmo a contragosto) entre o leitor e esse personagem hedonista, cínico, arrogante e desprezivelmente machista, que é, em sua essência, um modelo refratário do ambiente sórdido que o circunda, porém, acima de tudo, do ambiente acéfalo das redes sociais. Uma tábula onde expor os triunfos, as alegrias, o canto da sereia em troca de cliques; onde “não é necessário ser efetivamente nada para se chegar a alguma coisa”; onde o tempo diz respeito à era do simulacro e da simulação.

Além disso, o autor faz uma crítica mordaz ao meio artístico/literário, com suas enxurradas de elogios falsos, seus interesses diversos, as panelinhas, os editores que bajulam críticos, os autores que bajulam editores, os autores iniciantes que bajulam autores de renome, os autores medíocres que bajulam autores para se chegar aos editores, os autores que criam blogues de crítica literária para bajular autores e se chegar aos editores (Oi?!).

Ainda sob essa camada de voltagem contextual, há uma óbvia intenção de se cultivar o paradoxo entre o modo de agir no mundo real e o modo de agir no mundo virtual, mobilizado pelo moinho da grande farsa. Este é o fim da primeira parte, muito bem arquitetada, por sinal. Daí se apresentarão os desdobramentos, a execução das consequências de se sustentar uma mentira, porém o rumo tomado nessa metade final vai tornar a coisa toda um tanto controvertida, jogando contra justamente o contexto estabelecido.

De repente, Pontevedra começa a ser marcado em postagens de pessoas que afirmam ter participado de suas aulas na Sorbonne, de amigos que narram ter passado momentos especiais com ele em Paris. A própria universidade credita seu curso no site oficial. A princípio, ele leva como se fosse uma brincadeira (ou aquela história de que uma mentira bem contada passa a ser uma verdade compartilhada), no entanto fotos recentes dele em território francês pipocam na internet. Como?

Não cabe aqui estragar a surpresa, mas vale atentar para aquela que parece ser a tara dos novos escritores brasileiros: a antípoda do duplo, o doppelgänger. De tão usado, o artifício demonstra sinais de desgastes e já não causa tamanho impacto como dispositivo de reviravolta (em tempo, quando mal usado, é catastrófico). A história também se retinge de tonalidades sobrenaturais, atracadas a um tipo de maldição envolvendo o decadente sobrado, uma mensagem misteriosa e a relação do seu avô com um velho mefistofélico. O candomblé e a figura do “cavalo”, o filho de santo, é uma boa sacada no que tange a metáfora da duplicidade identitária, mas não se configura tema central. Márcio-André busca, com essa guinada de enredo, discutir a capacidade da violência de tornar o homem mais humano, ao invés de asselvajá-lo. Não falha, contudo o autor já tinha elevado o assunto à máxima potência na estupenda coletânea Poemas apócrifos de Paul Valéry, que foi finalista do Prêmio Jabuti.

Ao fim, fica a sensação de que Leonardo contra Paris poderia ter sido um livro causticamente realista, necessário nos tempos atuais em que o tribunal da internet consagra e condena alguém com a velocidade de um F5, mas decide apostar no fantástico que lhe empresta, ainda que temporariamente, algo de genérico.

***

Livro: Leonardo contra Paris

Editora: Confraria do Vento

Avaliação: Bom

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