Num limite entre a crônica

Em 2015, o jornalista e escritor carioca Marcelo Moutinho lançou a seleta de crônicas Na dobra do dia. Ao fim da leitura de Ferrugem, sua mais recente coletânea de contos, fica evidente que a alternância de gêneros conserva um valor intrínseco aos seus aspectos textuais.

As novas narrativas carregam, em suas texturas, a tênue plasticidade da crônica. Um jeito leve de costurar os nós do enredo, contrastando-se a um olhar agudo sobre determinadas cenas, sobre o perfil dos personagens, e, desse exercício quase investigativo, descobrir a semente da ficção.

O resultado é um jeito simples de escrita, mas que condiciona requinte na montagem estrutural, no desenvolvimento da trama, na lapidação dos diálogos. O sofisticado não carece de formalismo ou de uma linguagem enfeitada para alcançar tal efeito. Moutinho encontra na sobriedade uma técnica para dimensionar seus textos da matriz aos detalhes periféricos, com isso dando oportunidade ao leitor de conjecturar diante do sugerido, muitas vezes do silêncio.

É o caso do conto “Jantar a dois”, um dos menores e dos mais complexos. Um casal na meia-idade acomodam-se à mesa de um restaurante onde, entre idas e vindas do garçom, escolha dos pedidos e comentários superficiais, vão revelando suas psicologias e a musculatura do relacionamento. O não dito se manifesta nas nuances, nos pequenos gestos. O mesmo ocorre no lírico – e autoexplicativo – “Caiu uma estrela na minha sala”. Flertando com a literatura fantástica, o autor conforma uma breve história de lenidade, ao dar voz a um homem que vê a modorra de fim de domingo ser afugentada, depois que um corpo celeste entra pela janela do apartamento.

Aqui se põe à vista outra frequentação da crônica. Os personagens, apesar de lidarem com seus conflitos internos, nunca se isolam numa jornada inflexiva. As narrativas se conectam a uma perspectiva abrangente, na qual os sentimentos são coordenadas para se traçar um mapeamento mutuamente interno e externo. Vide “As praias desertas”, em que a protagonista vai ao litoral esperar um amante. Através do vasculhamento da paisagem, ela remonta o passado e antecipa o futuro dos dois.

Dois temas se destacam nos contos de Moutinho: a música e o futebol. Os melhores textos se enquadram nesse grupo. “Something” versa sobre encontros e desencontros no relacionamento amoroso, e o ruído que fica tipo uma nota incidental. “Rei” é sobre um cover do Roberto Carlos, que decide bancar um show próprio para provar seu talento. Entre as quatro linhas, “Gandula” conta a história de um menino que sonha em ser jogador de futebol, mas acaba se contentando com a função de apanhador de bolas no momento em que seu time de coração avança num campeonato. Já “Domingo no Maracanã” trata da relação entre pai e filha, tendo o futebol como motor para discutir o conflito entre o novo e o velho, a descoberta e o desencanto, guardando espaço para o saudosismo.

A matéria dos contos é a vida. A que está em curso agora nas casas e nas ruas; a que se ocupa dos atores do cotidiano, a cobradora de ônibus, o professor, o mendigo. Moutinho se presta a decifrar o secreto que há no trivial. Contudo não é vida que dá unidade à coletânea, e sim seu anteposto: o tempo. Da chegada dos ardores da puberdade, em “Xodó”, ao inescapável da finitude, no rascante “Três apitos”, o tempo é o que incinera, o que leva à suspensão ou à queda, o que corrói mas também fortifica, como nos versos do poema de João Cabral de Melo Neto, escolhido como epígrafe: E possa enfim o ferro/comer a ferrugem/o sim comer o não.

O autor igualmente resiste, defendendo e fundamentando sua carreira nas formas breves; decisão que não é pouca e pela qual já merecia ser lido. Mas há também a literatura que o consagra um dos melhores de sua geração, com qualidade seja no conto ou na crônica, ou no que um gênero pode emprestar ao outro.

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Livro: Ferrugem

Editora: Record

Avaliação: Bom

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2 comentários sobre “Num limite entre a crônica

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