O homem é o lobo do homem

Certa vez, assistia a um desses programas que se propõem a analisar serial killers, quando um deles confidenciou que, após assassinar sua primeira vítima, sentiu como se sua caixa craniana fosse feita de um vidro muito fino que acabara de se espatifar. Penso ser essa uma perfeita analogia para a perda da racionalidade. Cada caco sendo uma mínima porção do ser humano aniquilado na insurgência do animal interior.

Lembrei-me desses homens perversos, de homens que se brutificam e matam homens, após a leitura de Animalescos, antologia de Gonçalo M. Tavares. Os textos do autor português parecem convir desse instante de fratura. São os cacos da redoma que enjaulavam uma mente doentia e trazem, gravados nas faces de suas lâminas, registros que correlacionam humanidade e violência, sociedade e caos, religiosidade e desesperança, corpo e máquina.

A literatura passa por esses gumes cortantes que dão a impressão de ser prosseguimentos de algo obscuro entre a realidade e a escrita. Contos, ensaios, textos inclassificáveis e visuais. Tavares desconstrói a forma e prega a virulência do conteúdo, apostando na radicalização estética, no nível de incômodo e impacto que poderá causar. Como o vento Bora, um personagem sinuoso em algumas páginas, “que faz as cabeças loucas”.

A loucura é, de fato, o caminho mais fácil para se entender com o livro; aceitá-lo tal uma tábula de devaneios. Contudo não seria fiel à complexidade desse universo muito particular, povoado de esquisitices e seres perversos, mas carregado por um sentido de lucidez ao espelhar a verdade mais viva, os horrores que se concentram em cenas diárias, no que preferimos esconder por trás do véu da ficção.

O autor português converte os limites internos de seu livro numa arena, num zoo, num ambiente eletrizado por um léxico selvagem, por um exercício dramático no qual a subjetividade incorre de situações onde o horror se entranha em organismos e em engrenagens, produzindo um composto que parece sair de um cruzamento entre os pensamentos de Thomas Hobbes e a inventividade de Aldous Huxley.

Tudo isso processado por uma linguagem ágil e elegante, que por vezes supre as maiúsculas, faz do título uma combinação de palavras-chaves e, sobretudo, expõe uma engenhosa capacidade artística.

“(…) o tempo que em princípio não ocupa espaço, não se aloja em metros quadrados, mas também o tempo enche a madeira, vai enchendo a madeira como água enche um balde e, a partir de certa altura, a madeira apodrece porque lhe entrou tempo a mais para dentro, e o tempo é isso: não se vê, não ocupa espaço, é imaterial, mas faz envelhecer a madeira e os homens”, de “madeira/neurose/depressões”.

De volta ao programa sobre serial killers, o narrador em off comenta que um dos traços reconhecidos nesses assassinos é a combinação letal entre inteligência e psicopatia. Tavares transforma esses polos naturalmente opostos numa experiência literária de estranheza e fascínio.

***

Livro: Animalescos

Editora: Dublinense

Avaliação: Excelente

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