Um monumento chamado Clarice

Clarice não frequentou minha escola. Nosso primeiro encontro foi tardio, na maturidade. Salvo engano, por intermédio de G.H.. Depois foram mais um romance e alguns contos esparsos, ditos essenciais. Nunca li uma de suas antologias por inteiro.

Talvez eu fosse velho demais para Clarice. Confesso que sinto inveja, quando ouço um autor contar que a descobriu nas leituras extracurriculares, nas aulas de literatura. Minha grade era formada deliberadamente por homens. Joaquim Manoel de Macedo, Aluízio Azevedo, Machado de Assis. Forçando a memória, acho que uma vez tivemos Cecília Meireles. Mas criou-se uma pequena discórdia entre os pais, por conta do teor de alguns versos.

Penso que seja esta uma conclusão aceitável para a ausência de Clarice. Não estávamos preparados para seus livros. Embora desfeita, a ditadura ainda repercutia nos costumes e na prevalência dos valores morais escorados na autoridade masculina. Haja vista a figura do diretor e o medo que inspirava a simples menção de seu nome. A um menino, como eu era na década de 80, nunca seria oferecida a leitura de A paixão segundo G.H.. Seria subversivo demais, para usar uma expressão consolidada à época. Algo transformador que, diante da limitação intelectual, tornar-se-ia incompreensível.

Clarice morreu quatro meses antes de eu nascer. Passados 30 anos, o Brasil seguia incompreensivelmente despreparado para seus livros. Foi preciso a intervenção afetiva de um historiador norte-americano, para que sua literatura se irradiasse mundo afora e, assim como a autora, nascida estrangeira, emigrasse com triunfo por aqui. Clarice,, biografia assinada por Benjamin Moser, frequentou a lista dos mais vendidos durante meses. Em 2015, o mesmo Moser reuniu, pela primeira vez, os 85 contos escritos pela autora numa coletânea eleita um dos melhores lançamentos do ano pelo New York Times. Aclamado pela crítica internacional, o livro chega por aqui, numa luxuosa edição da Rocco.

Todos os contos, de Clarice Lispector, é um monumento literário. Uma dessas obras essenciais, cuja obtenção transcende o prazer da leitura. Ao chegar ao fim, senti-me envergonhado por não ter dado a importância devida aos seus livros antes, por ter sido relapso. Não sou partidário a comparações, mas concordo com o crítico Edmund White que escreveu que Clarice é uma escritora emblemática do século XX, assim como Kafka e Joyce. Se, no Brasil, fossem minimamente respeitados seus autores, a relevância de sua literatura não dependeria de reflexos de opiniões externas.

O volume percorre sua estreia no gênero, na década de 40, até textos encontrados após sua morte. Sofisticada e criativa, Clarice se mostra pronta desde suas primeiras histórias. O que se lê não é uma evolução artística, mas uma autora que manipula a forma, arrisca novos estilos, dimensiona a psicologia de seus personagens e, ao se lançar em experimentações, consagra-se genuína.

Certamente ninguém escreveu com tamanha profundidade sobre as inquietações e os ardores femininos; certamente poucos escreveram com tamanha profundidade. Clarice já estava no futuro, tratando, em seus contos, de temas badalados nos dias de hoje. Reconhecer sua grandeza talvez nos tire um pouco do passado.

***

Livro: Todos os contos

Editora: Rocco

Avaliação: Excelente

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Um comentário sobre “Um monumento chamado Clarice

  1. Não sou partidário a comparações, mas concordo com o crítico Edmund White que escreveu que Clarice é uma escritora emblemática do século XX, assim como Kafka e Joyce. Se, no Brasil, fossem minimamente respeitados seus autores, a relevância de sua literatura não dependeria de reflexos de opiniões externas.

    À parte a sentença acima, o texto é excelente. Não é restrito ao Brasil escritores serem minimamente respeitados. Kafka não era tão popular em sua cidade natal. E sua obra é praticamente ignorada na República Tcheca, onde é pouco lido até hoje. abs,

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