Um futuro muito longe de todos

Amanhã não tem ninguém, segundo romance de Flávio Izhaki, extrai o judaísmo de sua significação coletiva. Ao contrário do recorte histórico, os preceitos, os costumes e a carga hereditária concentram-se no arranjo familiar, na dissolução do mundano para o pessoal.

O autor carioca trabalha num microcosmo cingido pelo assombro de um povo marcado por um luto coletivo, revelando fantasmas que não são detidos pela religião, mas partem dela. A perda monumental e secular dá lugar a perdas ordinárias, pequenas falências em curso que mobilizam personagens que não conseguem se comunicar devidamente ou de forma alguma com o passado.

O livro tem início com uma morte, e a ideia da morte irá se propagar com mais intensidade pela narrativa do que a morte corpórea em si. Um menino é conduzido ao enterro do bisavô na mesma kombi que transporta o caixão, sem conseguir estabelecer qualquer relação com o morto senão a recordação de um canivete sem corte, que ganhou de presente do velho homem.

Ele pertence a uma família de origem judaica, porém, quando questionado sobre ritos que envolvem o funeral, não tem êxito na busca interna por respostas. Patrick, um nome que não dá pista sobre seus antepassados, tem mãe gói (não judia), o que poderia explicar o alheamento quanto à sua ascendência, caso isso não fosse mais um elemento que se esvai em sua breve existência que deriva em meio a relações vazias. Ao enterrar o bisavô, é como se também enterrasse a tradição. Algo sem uso para si feito um canivete cego.

Izhaki dispõe as metáforas sem exageros, por meio de sugestões. O tempo é a mais recorrente delas. Este aparece com forte incidência quando Natan, o bisavô, ganha a vez de narrador, provocando, na ruína da velhice antecipada por um AVC contra o esforço para manter acesa a autonomia, uma alternância entre passado e presente, do mesmo modo que o fluxo narrativo o faz, não vigorando uma ordem linear de fatos.

Ele herdou do pai o ofício de consertar relógios, um trabalho delicado e raro que requer precisão, algo que a idade vai consumindo até que se apague, uma condição inelutável tal qual o Alzheimer que desaparece definitivamente a esposa Ana. Fragilizado, Natan vai morar com a filha Marlene, onde passa a confrontar a imprestabilidade e o assalto de culpas e lamentos, liderado pelo fato de Ana ter se convertido ao catolicismo perto dos seus últimos dias. Ao efundir as angústias do velho judeu, o autor aproxima Natan do protagonista de Homem comum, de Philip Roth, alguém que, no fim da vida, torna-se aquilo que não queria ser.

Entre esses extremos que demarcam quatro gerações, o romance dá voz a outros membros, cuja vinculação (quando existe) é um mero cumprimento de formalidades, um ensaio de dissimulações. Todos estão encerrados em si, defendendo uma mentira ou compartilhando autoenganos.

Mônica, mãe de Patrick, não consegue superar o desprezo da sogra, por conta de não ser judia, e a fundura do mergulho do filho num estado que beira o autismo. Ela é separada de Nicolas, que se empenha para ser cardiologista após perder o pai vítima de infarto, contudo o ímpeto é demolido pela morte de um paciente em seu primeiro plantão. Marquinhos, o irmão mais novo que testemunhou o ataque fulminante durante uma partida de tênis, degringola após presenciar o suicídio de um jovem que lhe acendeu um desejo homossexual e, sem calço, decide se alistar no exército de Israel.

A falência sentimental condiciona a apatia de uma família que não se ocupa a reforçar laços afetivos, resumindo-se a contornos nos retratos que esmaecem ao poder do tempo. Com poucos diálogos, o romance é costurado por vozes internas que parecem dispostas a se explicar quando, de fato, querem se esconder. A morte – ou a permanente sensação de luto – é utilizada para derrocar qualquer ação de sobrepujamento, no entanto não há maior sinal de fracasso que a aceitação de que o que está morto é mais influente na ventura dos fatos que a providência de quem está vivo.

Marlene, mãe de Nicolas e Marquinhos, merece um destaque à parte. É a personagem mais intensa e bem delineada, dando a impressão de que o autor conformou o romance a partir dela. Sendo Ana uma presença mencionada, cabe a ela a força da matriarca, a função de ajustar passado e presente, caso não fosse ela própria descompassada, tomada por sentimentos contraditórios. Do mesmo modo que cuida do pai com carinho e demonstra um amor vigilante por Nicolas, negligencia Marquinhos, que tratava como Sara nos primeiros anos, por desejar uma filha que não veio, e despreza a nora por ser gói.

Ocorre que ela é fruto de um segredo. Depois de uma série de abortos espontâneos, Natan e Ana decidem adotá-la, mas a verdade é suprimida até da escolha do seu nome incomum, “tão antijudaico”. Marlene é a única que realmente se preocupa em conservar os costumes, os ritos, mesmo a origem não estando em seu sangue. A desconsideração do que não coexiste nesse universo servirá de anteparo para que ela, no enterro do pai ao lado de Patrick, preso a primeira fase de um jogo em que morre repetidamente, componha um final sensível e arrebatador.

Com prosa fluente e lapidada, personagens coesos e uma trama aderente e bem urdida, Amanhã não tem ninguém recorre à polifonia para retratar justamente a incapacidade de comunicação. Valendo-se de capítulos curtos, Izhaki propõe que recortes específicos de tempo são suficientes para traçar uma linha de vivência, ainda que, neste caso, não existam rumos precisos, toda tentativa de andar para frente adquira um efeito retardado, um salto do presente que lança fragosamente contra o passado. Como o título sugere, não há o futuro para esses personagens.

***

Livro: Amanhã não tem ninguém

Editora: Rocco

Avaliação: Muito bom

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